PRESSA

Atropelamento

Eu não entendo porque as pessoas têm tanta pressa.

Andando no centro da cidade o que mais vemos são pessoas que estão invadindo as pistas de carros para atravessarem antes de fechar o semáforo, são pessoas que estão no asfalto e não nas calçadas tentando parar o mundo para que elas cheguem a algum lugar.

E, infelizmente, vemos muitos idosos que fazem o mesmo: invadem a pista de rolamento de carros para correr, mesmo que não possam ou não aguentem, e atravessarem antes de tudo e de todos pra chegar. Chegar onde? Fazer o que? Por que tanta pressa e tanta correria?

As cidades estão cheias demais de veículos e pedestres. Há uma harmonia para que todos se movimentem e cheguem aos seus destinos. Há uma educação no trânsito para o motorista parar quando há uma faixa de pedestres e não há um semáforo. Mas os pedestres insistem em atravessar na frente dos carros nas faixas de pedestres quando há um sinal vermelho para sua passagem e a preferência é dos veículos.

Enfim, a Tribuna de Minas essa semana publicou uma reportagem dizendo que a cada dois dias um idoso é atropelado nas ruas de Juiz de Fora. Muito sério! Achar o culpado depois que o corpo está no chão, ferido e com possibilidades de morte e o motorista desesperado e com todos pedestres lhe apontando o dedo e chamando-o de assassino, não tem jeito.

A culpa é da pressa. Pressa que todo mundo tem pra chegar a algum lugar, fazer alguma coisa, deixar de fazer outras e se enganar, muitas vezes, que é assim que deveria ser.

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Quando eu não for mais eu

italia (7)

Quando eu não for mais eu

Quando eu não passar de carne torpe

Apodrecendo como lama nos manguesais

Quando tudo tiver terminado…

Que direi dos amores que tive?

Terei amado mais que o poeta?

Terei sentido, sofrido mais

Que um louco romântico deslumbrado?

Que direi das pessoas que tive?

Dos prazeres que dei, se os dei,

Foram tantos, foram poucos?

Os prazeres que tive… alguns não lembro…

Que direi da vida que vivi?

A intensidade dos meus atos

Valeram a pena? A dor de não

Mais viver, valerá a pena?

Quando eu não for mais eu,

Quando tudo estiver terminado,

Talvez minha ansiedade, essa vontade louca,

Se dissipe pelo universo e desequilibre o cosmos.

1 + 1 A matemática do amor

1+1

Um livro tem que nos dar prazer de ler!

Um livro tem que mexer com nossos sentimentos!

Terminei ontem de ler “1+1 A Matemática do Amor” de Augusto Alvarenga e Vinicius Grossos. Acredito que demorei mais para ler para não me despedir de Bernardo e Lucas tão rapidamente.

A história dos dois rapazes, Bernardo, o Bê, e Lucas é envolvente e muito bem narrada em um trabalho difícil: quatro mãos. Cada um dos autores escreveu um personagem que conta em primeira pessoa a história. E é bom descobrir quem escreveu quem.

Lucas e Bernardo, provavelmente vieram de outra encarnação para nascerem vizinhos de casa. Desde então, cresceram juntos, estudaram na mesma escola, brincaram juntos, descobriram o mundo juntos e se amaram. Amaram um amor puro que só se deram conta desse amor quando Bernardo teve que se mudar para Portugal com sua família. A partir dessa possível perda perceberam que eles eram parte um do outro, vida um do outro e necessitavam do outro como do ar que respiram.

A trama é perfeita e o trabalho dos autores sensacional.

Quanto a trazer emoção e prazer de ler… eu terminei o livro chorando e com uma vontade imensa de tornar a vê-los em uma época futura de suas vidas.

Parabéns aos autores pelo trabalho que recomendo que seja lido por todo mundo.

Tudo bem?

chuva na avenida

E aí aquele amigo me perguntou, passando por mim, na rua:

_ Tudo bom?

Tudo bom nada, pensei, estou indo trabalhar todo de branco nessa chuva que não para e não cai de vez, estou cansado de tanto correr de um lado para o outro nesse calorão infernal e não posso morar dentro de um iceberg, queria poder parar e jogar as pernas pra cima e não me culpar de ficar três minutos a toa, estou duro e quanto mais me esforço mais contas me aparecem, talvez com fome, mas só poderei comer o pastel horrível da cantina mais tarde quando parar para respirar se nesse momento nenhum dos meus pacientes parar de respirar, estou cheio de dúvidas quanto ao que fazer quando chegar em casa, se der tempo de ir em casa ver a minha família e se a família tiver tempo de me ver quando eu for lá, estou suando como se estivesse numa sauna, mas na realidade estou vestido e no meio da rua, aflito por estar quase atrasado, mas se não me aflijo atraso mesmo, quero chegar o mais rápido possível ao local de trabalho e sei que me aborrecerei com o caos burocrático que virou a medicina atual, mas se não chego na hora quem me aguarda se aborrecerá com o meu atraso como sempre me aborreço com o atraso de quem me rende, preciso correr mais  que o mundo já que a inefável massa humana é patética e, ou lhe sobra o tempo que não tenho ou lhe falta o que fazer, não correrá nem de uma catástrofe, aliás a catástrofe que se implanta na minha vida talvez me fizesse correr do picadeiro horrendo, mas a peça ainda não acabou, o dia ainda não acabou e o meu iceberg não existe, queria estar dentro dele congelado, mudo, imutável pela eternidade não incomodando, não sendo incomodado…

Olho pro meu amigo que passa e respondo:

_ Tudo ótimo e você?

Claro que eu continuo correndo com medo de ouvir o que ele poderia dizer do que pensa!

_ Tudo bom! ouço ao longe.

Coisas

plantas

Há coisas que talvez não possamos segurar,

Há coisas que às vezes não podemos compreender,

Há coisas que nos são imensamente caras

E há aquelas que nos são fundamentais!

 

 

 

Há coisas que por mais que queiramos

Não podemos e nem conseguimos ter.

Há  coisas que por mais fortes que sejam

Temos que abrir mão, deixar passar…

 

 

 

Há coisas que desejo e quero muito

E outras que não mais me permito.

Há coisas que não mais me passam pela mente…

 

 

 

Há coisas que há anos lutei por elas,

E outras que hoje sou capaz de tudo…

E há aquelas que não conseguimos segurar…

Coisas da Noite, 1997:7.

INVERNO EM PARIS

Antologia Lafaiete 2012

– Vamos pra Paris? – perguntou Roberto de repente.

– Claro! – responde Maria Lúcia sorrindo.

– Eu estou falando sério, gente.

– Nós topamos – diz Silvio, – vamos de bicicleta.

– Não, vocês não estão me entendendo – retorna Roberto aos amigos. – Eu estou meio de saco cheio de tudo o que faço aqui, vocês também. As nossas famílias são uns porres. Não temos nada a perder. Vamos pra Paris.

– Mas a gente nem fala francês – diz Maria Lúcia.

– Isso não é problema! Eu posso ensinar francês para vocês – diz Roberto.

– Você sabe que seria ótimo – diz Silvio. – A gente pode pensar no assunto.

O garçom passa e traz outra garrafa de vinho para os três amigos que aguardam o jantar no restaurante.

São amigos de muitos anos e desde a escola média, andam sempre juntos, fazem tudo juntos e, como a vida acaba mudando os hábitos de todo ser humano, não podem mais sair juntos todas as noites, mas às sextas-feiras, o jantar na Cantina do Giuliano é sagrado.

– Não acredito que tenhamos muito como resolver isso já – explica Roberto, – mas em seis meses, podemos embarcar para Paris como todas as nossas coisas resolvidas.

– Seis meses é um bom tempo – concorda Silvio. – Eu preciso mesmo resolver umas pendências…

– Seis meses e mudamos de vida – concorda também Maria Lúcia. – Ah, mas vai ser ótimo! Imaginem, Paris!

– Mas não será a Paris dos sonhos no início não, Maria Lúcia. Vamos ter que trabalhar… – explica Roberto.

– Eu sei, querido, mas sair dessa vida que tenho vai ser muito bom.

Os três amigos sonham com a mudança de vida. Muitas pessoas vivem esse sonho de mudar de vida saindo do país. Esperam que a vida seja menos árdua e menos difícil em outras terras. Esquecem-se, no entanto, que terão mil outros dissabores no estrangeiro, farão coisas que não fariam na terra natal por se sentirem diminuídos em suas funções. A saída do país para melhorar de vida é uma grande ilusão.

Roberto há muito tempo tinha planos de sair do Brasil. O jovem de vinte e oito anos era professor do curso de engenharia e mantinha ainda um escritório de sucesso. Já era nome conhecido em quase todo o país. Solteiro, morava sozinho em uma excelente casa de quatro quartos em um bairro nobre. Vestia-se muito bem e vivia em perfeita harmonia com a moda mundial.

Sílvio dividia o escritório de advocacia com um outro amigo, mas era um magistrado medíocre. Jamais conseguia uma boa causa e vivia de causas carcerárias. Também aos vinte e oito anos estivera quase se casando há cinco anos atrás, mas o desentendimento entre as duas famílias impediu o casamento e levou ao rompimento da relação e até da amizade. Nunca mais se interessou por ninguém.

Maria Lúcia era proprietária de uma boutique famosa que herdara de sua mãe quando esta se sucumbiu em um acidente automobilístico há cinco anos. A moça morava sozinha e há mais de quinze anos não se tem notícias de seu pai. É linda e, apesar de ter já seus vinte e seis anos, nunca pensou em se casar.

– A gente precisa aprender francês – retornou Sílvio.

– Eu ensino pra vocês. Agora o mais importante é que ninguém saiba disso. Vamos fazer como se tudo estivesse normal e quando for a hora a gente vai e pronto – diz Roberto.

– Eu acho ótimo! Ah, eu sou louca pra conhece Paris – sonha Maria Lúcia. – Você acha que a gente consegue mesmo ir, Roberto?

– Claro, menina! Em seis meses a gente terá o dinheiro para ficar pelo menos dois meses sem trabalho – explica Roberto, – agora eu preciso passar para vocês o meu plano todo de viagem, de dinheiro, de tudo enfim.

Os três amigos continuam conversando e sonhando durante o jantar e durante toda a noite.

A vida vem mostrando a Roberto que todo o seu esforço lhe dá apenas posição social, prestígio e nada mais. O grande vazio de sua vida não está esclarecido e ele sofre com uma enorme solidão cultivada ao longo de todos esses anos. Não conseguiu se firmar emocionalmente e sempre busca alento nos amigos Silvio e Maria Lúcia.

Sílvio por sua vez, sente-se o homem mais sozinho do mundo desde o fim de seu noivado. Não há nada que o faça buscar outros relacionamentos e nem sair da enorme casca que criou em torno de si mesmo. Apesar de mau advogado, tem uma renda mensal muito boa e convive com todo o luxo que precisaria um homem só.

A mais estável sentimentalmente é Maria Lúcia que é uma mulher independente financeiramente e parece estar de  bem com a vida, mas sofre também com uma insatisfação pessoal infindável.

A decisão de ir para Paris agradou em cheio todos eles. Precisavam realmente chacoalhar a vida. Precisavam quebrar a cabeça, pisar em falso, cair… Precisavam tomar essa decisão com força.

O dia do embarque chegou rápido. Encontraram-se no aeroporto do Galeão já falando francês. A euforia dos três era contagiante. Ninguém os acompanhava. Disseram aos amigos e parentes que iriam ali, a Paris, por algum tempo e mandariam notícias.

Tudo era festa. O avião: – Maria Lúcia adorava avião, Silvio jamais andar em um e Roberto estava delirante! Fizeram roupas especiais para o avião. Maria Lúcia comandou o guarda-roupas. Estavam muito bem vestidos. Pareciam de férias.

Enfim Paris! Desceram no aeroporto e Roberto, fluente na língua local, organizou todo o desembarque, todo o translado até o hotel. A cada metro que o taxi andava era um deslumbramento novo. Silvio estava apavorado mas ao mesmo tempo deliciado com a perspectiva da vida nova.

Roberto explicou-lhes que ficariam em um hotel ¨moins cher¨ por alguns dias e logo depois estariam em seu apartamento. Não demorou tantos dias e logo estavam muito bem instalados em um pequeno apartamento de dois quartos no Quartier Latin.

Os três amigos tornaram-se então muito mais unidos na solidão conjunta de uma cidade tão grande e tão diferente. Não havia nada que os fizessem estar separados e, até mesmo na hora de arrumarem emprego, arrumaram na mesma firma.

Certa noite, saíram para tomar um bom vinho e esticaram um pouco mais a noite. Estavam que não cabiam sem si de satisfação e o clima romântico da cidade, talvez tenha feito com que eles sentissem um pouco mais de atração por eles mesmos.

Acordaram no dia seguinte, dormindo na mesma cama. Roberto foi o primeiro a acordar e sentir o emaranhado de pernas entrelaçadas. Sentia o contato dos corpos de Maria Lúcia e Silvio no seu e fechou os olhos contente. Permaneceu quieto, diminuiu até a respiração com medo de acordar os amigos. Quando sentiu que acordavam, fingiu também despertar e deu bom dia. Ambos responderam timidamente e procuraram sair da cama e vestir suas roupas. Estavam envergonhados por estarem tão intimamente unidos no mesmo espaço. Maria Lúcia entrou no banheiro e Silvio foi para a Janela. Roberto se vestiu, embora tivesse o costume de entrar no chuveiro todas as manhãs, preferiu conservar no corpo o cheiro do sexo feito à noite, dos cheiros dos amigos.

Tomaram café da manhã em silêncio e saíram para o trabalho também em silêncio. À noite, depois de muito refletir sobre o que acontecera, evitaram chegar em casa tão cedo e desviaram o caminho. Sílvio sugeriu tomarem um vinho. Maria Lúcia aceitou se fosse apenas uma garrafa. Para Roberto tanto fazia. Era importante estarem juntos.

Os dias se passaram e eles continuaram a se ter nas noites frias após certa dose de vinho. Acordavam com menos vergonha e cada dia mais se sentiam bem ao acordar misturados uns nos outros. Supriam a solidão maior que criaram para si mesmos se confortando sexualmente.

Um dia, Roberto sentiu que talvez não estivesse certo e por vezes ele se sentia sobrando na relação cada dia mais forte dos amigos. Ele estaria atrapalhando a vida deles. Eles estariam com ele por companheirismo, porque ele tivera a ideia de ir para Paris.

Saiu de casa, Alugou um outro apartamento de um quarto e foi morar sozinho e depois acostumou-se à cama fria, ao abandono a que se impusera.

Ao seu lado, Sílvio e Maria Lúcia também estavam péssimos. Não tinham mais prazer ao chegar em casa e pouco conversavam. A situação piorou quando uma noite, Maria Lúcia voltou para seu quarto e preferiu dormir sozinha. Alguma coisa se quebrara entre eles. O prazer de estar em Paris havia se acabado?

Não puderam deixar passar mais dias naquele desespero, naquela insatisfação total, naquele viver por viver.

A ideia de sair à noite foi de Silvio. Há duas semanas eles não saiam para tomar nada. Precisavam beber um bom vinho e colocar as notícias em dia. Maria Lúcia se empolgou e se vestiu da melhor forma possível. Roberto fora o primeiro a chegar. Ousou até vestir um terno azul marinho.

Chegaram ao restaurante que frequentavam desde que chegaram a Paris e se sentaram sem saber o que dizer. Falaram da neve que prometia cair, falavam das pessoas que passavam por eles procurando lugar no restaurante lotado, falavam de nada.

– Por que você se mudou lá de casa, Roberto? – perguntou Silvio incisivo.

– Porque mudei, ora… – respondeu evasivo.

– Você não gosta mais da gente? – perguntou Maria Lúcia sorrindo.

– Não é isso… – titubeou Roberto. – Eu… eu…  Na verdade eu achei que estava incomodando vocês. Eu estava meio que atrapalhando a relação…

– Que relação? – perguntou Silvio. – A nossa? – fez um gesto circular incluindo o amigo.

– Eu acho que… – tentou dize Roberto.

– Eu acho que você é um bobo – disse Maria Lúcia. – Você está fugindo de que?

– Eu não estou entendendo – disse Roberto. – O que vocês querem? Vocês acham que eu estou contente de morar sozinho, de estar sozinho, de quere deixar vocês onde estão?

– Claro que não! E você acha que nós estamos satisfeitos de não ter você? – perguntou Silvio empolgado como vinho que bebera. – O que você acha que nós fizemos depois que você se foi?

– Sei lá – respondeu Roberto sorrindo. – Vocês estão com saudades de mim?

– Não brinque, Roberto – disse Maria Lúcia séria. – Estivemos conversando muito hoje, Silvio e eu e vimos que nós só existimos em três.

– Você faz falta, Roberto – disse Silvio.

– Você está brincando, Silvio. Com esse mulherão do lado, você está a fim de mim?

– Não, cara, você não está entendendo. Custou-nos algumas noites de sono pra definir isso. Nós estamos a fim de nós. Nós estamos fazendo falta para nós. Não existe um se não for três –explicou Silvio.

– Roberto, você tem que voltar para nós – disse Maria Lúcia.

– Eu estou confuso – disse Roberto. – Eu também senti a falta de vocês. Como eu adorei o primeiro dia que acordamos juntos e fizemos amor a noite toda. Como eu adorei cada noite depois. Como eu adoro vocês. Eu achei…

– Achou merda! – disse Silvio enfático. – Eu não consigo aquecer a Maria Lúcia, sozinho nesse inverno, querido.

– Eu estou fazendo falta? – perguntou Roberto.

– Sim! – responderam juntos.

– Vocês também estão fazendo falta. Imaginem eu então, dormindo sozinho, que frio!

– Vamos dar um jeito nisso hoje – disse Silvio. – Eu te amo, cara.

– Também te amo – disse Maria Lúcia. – E amo o Silvio.

– Eu amo vocês dois – concluiu ele.

– Garçom – chamou Maria Lúcia, – traga outra garrafa de vinho, pra começar.

Riram, se abraçaram, se beijaram independente de quem estivesse perto deles e permaneceram a noite de mãos dadas. Sabiam que ali estariam fazendo uma coisa que jamais fariam na terra natal, mas que era o que queriam, era o que lhes aquecia o coração mais que tudo naquele inverno francês. Julho 2012.

Antologia Lafaiete em Prosa e verso. 2012. XVIII:32-6.

 

 

 

I BIENAL DE LIVROS DE JUIZ DE FORA

BIENAL 2

A Liga dos Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora – LEIAJF – marcou presença na I BIENAL DE JF com 17 autores. Levamos livros infantis, infanto-juvenis, adulto e história. A participação na Bienal mostra a importância do trabalho da liga e de seus membros.

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Movimento grande de pessoas durante os seis dias de portas abertas. Isso mostra que a população de Juiz de Fora lê bastante.

BIENAL 4 No Stand da LEIAJF a todo momento os autores presentes conversavam, apresentavam seus trabalhos ou contavam histórias. A Bienal de Juiz de Fora deixou um gosto de quero mais. Vamos estar presentes na próxima com muito mais prazer.

Quando eu ficar velho

Parque Halfeld Juiz de Fora

Quando eu ficar velho,

Vou ficar!

Quero sentar-me no Parque Halfeld,

Ver a vida passar,

Ver os jovens passarem,

Ver o mundo acontecer…

Quando eu ficar velho,

Será que vou ficar?

Quero caminhar por  Juiz de Fora,

– Que será uma loucura,

Maior do que já é —

E ver as coisas lindas

Que sempre existem nesta terra.

Quero ver o calçadão,

amo o calçadão.

Quero andar atropelado de gente

de bons dias,

de ois tudo bem?,

como vai?…

Há quanto tempo!…

Quero andar pelas ruas,

Quero ver o Museu…

Eu velho, o museu jovem…

Quero ver nos meus dias,

Serão mesmo bons dias?

Serão mesmos como vai?

Serão mesmo oi?

Serão `mais jovens todos,

todos,

todos!

E eu estarei ali,

Sentado no Parque Halfeld,

Maravilhoso, sensacional, impar,

A ver o mundo passar…

Laizo, Artur. Coisas da Noite, 1997:5.

DIA DA PADROEIRA

Ele morreu no dia de Nossa Senhora Aparecida – padroeira do Brasil, feriado, dia santo. Era costume daquela cidadezinha do interior e daquele povo da região, soltarem fogos de artifício em homenagem à Santa, ao meio-dia.

Como soltariam fogos e comemorariam o dia da Santa se ele morrera? O caixão na sala pedia piedade de todos. O rosto bondoso do defunto merecia uma auréola de imaculada perfeição. A viúva chorava a mais não poder e as pessoas a confortavam:

– Mas foi melhor assim, querida – dizia uma -, ele nem sofreu.

– Tão bom homem – dizia outra -, tão correto.

– Tão bom pai – disse um senhor ao que os três filhos fungaram uma lágrima e a viúva chorava.

– Não quero que soltem foguetes – disse ela a certa altura. – Ele não merece que façamos festa e a Santa há de concordar que a nossa dor é grande.

– Claro! – concordaram todos. – Não haverá fogos! – todos pensavam em seus próprios foguetes. – Rezaremos para que a Santa lhe dê proteção no outro mundo.

A hora passando, talvez só um foguetinho, pensaram…

– Ele ficou me devendo – disse o dono do armazém.

– Shihhh! Não é hora para isso – disse uma senhora de véu roxo sobre os cabelos brancos.

– A mim ele devia mais – disse o dono do açougue. – Há três meses não vejo um realzinho.

– Mas a mulher dele não deve estar sabendo, coitada – disse outra vizinha gorda e agitada. – Ela achava que ele era tão correto.

– Tão bom homem – disse o açougueiro.

– Tão bom pai – disse o dono do armazém.

A viúva, ouvindo qualquer coisa, levantou os olhos para os comerciantes e perguntou:

– Meu marido estava devendo aos senhores?

– Sim, quer dizer… – respondeu o dono do armazém. – Depois a gente conversa.

– Isso mesmo, a gente conversa depois – disse o do açougue.

– E é muito? – perguntou a viúva com cara de piedade.

– A mim, três meses de compras para a casa – disse o dono do armazém.

– Igual para mim – disse o açougueiro –, três meses de carne.

– Mas não pode ser – disse a viúva. – Ele sempre fora tão correto.

– Tão bom homem.

– Tão bom marido.

– Tão bom pai – disse outro e outra lágrima fora fungada pelos três filhos.

– Mas ultimamente… – disse a mulher gorda e se arrependera.

– Comadre sabe de coisa que não sei? – perguntou a viúva.

– Claro que não, comadre – respondeu a gorda. – Deus que me livre.

– Comadre? – disse a viúva em tom de pergunta.

– Depois a gente fala sobre isso – disse a gorda.

– Depois não – disse a viúva que parara de chorar e encarava o trio. – O que houve?

– Nada, comadre. Sabe, eu tenho uma sobrinha que queria tanto vir vê-lo, comadre. Coitada, nunca viu defunto.

– Mande que ela venha – disse a viúva sentando-se novamente chorosa.

A hora passando, o morto na sala, os fogos na cozinha e Nossa Senhora a tudo assistindo…

Entra então, a sobrinha da vizinha gorda, uma mulher escultural de trinta e poucos anos e todos olharam o belo corpo da “sobrinha”. Esta se aproximou do caixão, ao lado da viúva oficial e não aguentando começou a chorar agarrada na mão gelada e dura do morto.

– Por que você foi me deixa? – gritou ela de repente ao que todos sse calaram. – Você prometeu que não iria morrer nunca.

O espanto era geral. Ele não era tão bom homem, tão correto, tão bom marido, tão bom pai? O que era aquela “sobrinha” que ninguém conhecia?

– Senhora – disse-lhe um homem de meia idade que a segurou pelos ombros.

– Solta-me, deixe que eu me despeça do meu único amado.

– Amado?! – exaltou-se a viúva oficial. – O que você quer dizer com isso?

– Eu o amava tanto – disse ela aos prantos.

– Amava? – pergunta a viúva. – E ele?

– Ele dizia que me amava demais – disse ela suspirando.

– E você e ele?

– E nós dois… E nós dois? Nunca mais nós dois – desatou-se a chorar convulsivamente e os homens da sala a levaram da sala onde estava o morto para a cozinha onde estavam os fogos…

– Meu Deus! – disse a viúva que nessa hora duvidava de ser a oficial. – O que você fez? – perguntou ao marido morto.

– Com certeza nada, comadre – disse uma mulher vestida de preto. – Ele era tão correto.

– Tão bom homem – disse outra.

– Tão bom marido – disse outra a quem a viúva olhou estupefata.

– Tão bom pai – disse um homem calvo e pode-se ouvir que os três filhos fungaram outra lágrima.

A viúva não mais chorava. O morto na sala tinha um ar menos angelical. Os fogos na cozinha estavam esquecidos.

– Quase meio dia – disse a lavadeira da família.

– Temos que rezar – disseram outras.

– Pena não ter fogos – disse uma adolescente de olheiras.

– Não pode ter fogos – disse a mãe da adolescente de olheiras também de olheiras. – Ele morreu.

– Pois é, tão bom homem…

– Tão bom marido…

– Pera aí! – disse a viúva ainda ouvindo os gritos da “sobrinha” histérica. – Bom homem com dívida? Deve ter mais! Bom marido com outra? Pode ter mais. Bom pai? Deus sabe lá de quantos? – Os três filhos fungaram seco.

– Comadre, ele morreu – disse a gorda.

– E sua sobrinha está viúva também?

– Não é minha sobrinha – disse a comadre.

– Agora não me interessa – disse a viúva. – Quantas horas?

– Vinte para o meio-dia – responderam.

– Então soltem a metade dos fogos agora – disse a viúva.

– Agora? – perguntaram assustados. – Mas não é ao meio-dia?

– Soltem a metade e gritem: Viva!

– Viva a Santa? – perguntou

o açougueiro.

– Não, senhor. Viva que ele morreu. Estou livre desse sem vergonha. Estou livre desse salafrário.

– E a outra metade? – perguntaram.

– Soltem ao meio-dia, para a Santa. Ela merece. Mas se ela ajudar ele lá no além, ano que vem vai ficar esperando – concluiu a viúva.

Laizo, Artur. Antologia Lafaiete em Prosa e Verso; 2015:55-8.

 

Antologia Lafaiete 2015

EU NÃO VOU APAGAR A TOCHA

Eu, às vezes, fico imaginando como seria bom morar em outro país onde tudo fosse politicamente, socialmente correto. Onde as pessoas fossem mais patriotas e amassem seu país como parte de si mesmas. Às vezes, fico pensando: por que os brasileiros não são tão apaixonados pelo Brasil?

Nosso povo está acostumado a criticar o país e aceitar a mamata que lhe é oferecida. Está acostumado a criticar a corrupção, mas também praticar atos menores de falcatruas que não deveriam acontecer em hipótese nenhuma.

Na esfera máxima do governo há corrupção e roubo, nas esferas menores, nas menores instâncias da política, há sempre o favoritismo e a sessão de favores e obséquios onde deveria haver trabalho e seriedade.

Não temos vacinas, não temos leitos de hospital, não temos comida nas casas de muitos brasileiros. Vamos pras ruas criticar e apagar a tocha olímpica! Claro! A culpa é da Olimpíada!

O dinheiro que não chega para os hospitais públicos e/ou cidades do interior do país, onde ainda se morre de doenças comuns como apendicite, ou procedimentos comuns como partos, não é culpa da tocha.

Ter ou não ter Olimpíada no Brasil? Ter um evento maravilhoso em um país conhecido mundialmente pelo futebol, pelo vôlei, por tantos atletas importantes, é uma forma de dar uma alegria ao povo. É uma forma de mostrar que estamos no páreo de grandes nações.

O que o país precisa é de brasileiros que pintem a cara de verde e amarelo, vistam-se de verde e amarelo, tenham um coração verde e amarelo sem ter vergonha de serem brasileiros.

Temos que lutar para ter um país sério e verde amarelo. Temos que ser brasileiros e, vestindo o manto de nossa bandeira, consertar o que está atrapalhando esta nação ser maravilhosa como deveria sempre ser.

Eu não vou apagar a tocha! Ao contrário disso, fui pra rua, aplaudi e chorei de emoção ao vê-la passar.

Vamos torcer por nossos atletas que vão mostrar ao mundo que o Brasil tem esportes, tem competição e, se acreditarmos, será o melhor lugar do mundo.tocha-olimpica-rio-2016-foto-ilustrativa-divulgacao