O TÚMULO DA MÃE

cemitério

Ele ia ao túmulo da mãe todos os dias. Ele chegava sozinho, sempre com um chapéu que cobria o topo da cabeça, mas que deixava os longos cabelos loiros soltos por baixo. Envolvia o pescoço com um cachecol xadrez bege com preto nos dias frios para não “pegar friagem na garganta”. Ele olhava o túmulo simples naquele cemitério onde havia túmulos de mármore e ouro e de alvenaria simples, pintados de tinta comum – o da mãe dele era banco, sujo devido ao tempo que ninguém cuidava.

Ele gostava do cemitério. Gostava de estar ali dentro envolvido por construções que guardavam corpos. Gostava do silêncio. Na hora que ele ia, sempre pela manhã, antes de ir para o escritório, não havia quase ninguém no cemitério e ele podia sentir na carne o silêncio do lugar. Parecia que o silêncio causava-lhe um prurido gostoso. Um prazer por estar envolvido naquele clima entre os túmulos de mistério e medo. Ele tinha medo de estar ali dentro? Não, bobagem. Ele gostava de estar ali envolvido naquela aura de energia. Ele considerava que estava sempre rodeado de espíritos que ali vagavam tomando conta de seus corpos. Eles jamais iriam a qualquer lugar. Uma vez ou outra, ele se sentia observado.

Sua mãe estava ali e por isso mesmo ele ia toda manhã pedir a sua benção, conversar com ela, contar o que acontecera com ele no dia anterior. Ele precisava da mãe. Ele, durante muito tempo, vivera com a mãe e para a mãe e agora, com trinta e cinco anos, perdera a mãe, perdera o chão, perdera a vontade de viver. Será que era ela, a presença que sentia cada dia mais forte?

Ali, diante do túmulo da mãe ele rezava. Ele chorava. Ele sofria a perda. Ele perdera a companhia, perdera o único ente querido que conhecera. Não havia mais parentes. Por causa da mãe, ele não tinha amigos. Por causa da mãe, ele não se casara. Por causa dela ele estava ali todas as manhãs. Queria falar com ela. Agora que percebera que sua vida não tinha nenhum sentido ele queria falar com ela e reclamar com ela disso tudo. Ele queria que ela soubesse que ele estragara a própria vida por causa dela e ela foi embora. Ela foi egoísta e foi embora, deixando ele sozinho, sem ninguém. Ela era culpada dele ser infeliz. Ele estava ali todos os dias, para dizer a ela que a vida dele era muito ruim. Ele estava ali todos os dias para impedir que ela tivesse sossego.

Um dia, uma linda mulher loira apareceu perto do túmulo e deixou-se ser vista por ele. Era ela que o observava todos os dias. Ele rezava, ele chorava, ele olhava para a mulher loira que estava a uma distância que ele não podia calcular. Parecia ser vinte metros ou duzentos metros, parecia ser dez metros, parecia ser do outro lado do mundo. Ele olhava a loira, ele chorava pela mãe. Ele desejava a moça, ele odiava a mãe. Ele queria aquele frescor de primavera e queria que a mãe apodrecesse no mais rigoroso inverno. Ele olhava, ele sentia o cheiro, ele viu que ela o chamava. Ele deixou o túmulo da mãe e começou a caminhar em direção à mulher que estava a dez ou a mil metros de distância ele não sabia. Ele andava e mais envolvido pela aura de calor daquele ser ele estava.

Ela parou e esperou por ele. O tempo deixou de existir. Ele gastou dez segundos ou dez horas para chegar perto dela. Ela o olhou com olhos vermelhos profundos e sorriu. Ele sorriu também e a beijou nos lábios. O sol sumiu. O vento parou de passar entre os túmulos. O silêncio que ele gostava foi muito maior. Os espíritos que perambulavam por ali permaneceram imóveis, assustados.

No dia seguinte, o cachecol do rapaz foi encontrado junto com o chapéu muito bem colocado sobre o túmulo da sua mãe. O sol voltou a brilhar. O vento voltou a passar entre os túmulos. O silêncio continuou o mesmo. E ele? Ele nunca mais foi visto, nem no cemitério, nem no trabalho, nem em lugar algum.

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