CASTRO ALVES

CASTRO ALVES

Eu já não tenho mais vida!
Tu já não tens mais amor!
Tu só vives para o riso,
eu só vivo para dor.

 

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

 

Na hora em que a terra dorme
enrolada em frios véus,
eu ouço uma reza enorme
enchendo o abismo dos céus.

Anúncios

PRANTEAR MEUS MORTOS

cemiterio

Creio que chegou a hora de prantear meus mortos:

Meus amores mortos,

Meus sonhos mortos,

Meus desejos mortos,

Minha vida quase morta

Por milhão de razões indeléveis.

 

E no velório dos meus mortos,

Há tantos amigos que não virão,

Deixaram de ser amigos,

Há tantos amores que não virão,

Deixaram de me amar a tempos,

Há tanta vida que não vivi,

Deixei de lado por não saber viver…

 

Quero um ritual fúnebre e tenso.

Não quero alegria, música, sorrisos.

O dia é de prantear os mortos

E eu estou morto no meio da sala

Rodeado de velas incandescentes

Uma para cada coisa que não vivi,

Uma para cada amor que não amei,

Uma para cada amor que não me amou,

Uma para cada sonho que perdi.

 

Chegou a hora de prantear meus mortos!

Quero chorar por cada falta que me fazem.

Quero lembrar-me de cada pessoa que passou por mim

E não quis ficar,

E preferiu ir embora,

Ousou me esquecer e deixou-me ao relento…

Chegou a hora de prantear meus mortos

E nem mesmo companhia tenho nesta hora.

CADERNO DE AUTÓGRAFOS

caderno de autógrafos
Antigo Caderno De Autógrafos Em Madeira Machetada De 1945

 

Eu estava saindo do Cinema Central em Juiz de Fora, quando vi um rapaz de mais ou menos dezesseis anos pedindo autógrafo para os músicos da banda do cantor Ney Matogrosso, que acabara de fazer seu maravilhoso show. O menino conversava com os músicos anônimos e seus olhos brilhavam quando ele recebia o autógrafo. Não foram tantos, talvez três no máximo e ele se foi feliz. Talvez nem mesmo dormisse com o seu caderno de autógrafos sob o travesseiro.

Eu fiquei imaginando e revendo fatos e adorei ver a cara do rapazinho. Era um menino ainda virgem para as vicissitudes da vida, ainda cheio de ilusão.

E é sobre essa ilusão que eu me atenho e gostaria de falar. Que bom que ainda existem pessoas que têm ilusão na vida e têm com o que sonhar. Seria bom se todos nós conseguíssemos manter essa ilusão, esses sonhos por muito tempo em nossas vidas. A gente vai passando pelos anos, talvez a vida vá passando por nos e nós não percebemos que nas intempéries todas a que sobrevivemos, somente morrem os sonhos; quiçá exista ainda alguma ilusão.

Quando perdemos de vez todos os nossos sonhos e ilusões, quando não há mais nada que a pura e cruel realidade a nos acompanhar, acredito que morremos e passamos a esperar apenas que nossos dias terminem quando chegar a hora. Não há vida se não há sonhos e não há sonhos se não temos um mínimo de ilusão de que tudo pode ser bom. Não é nada bom se não fantasiamos um pouco e a realidade nunca é agradável.

Eu gostaria de voltar a ver esse menino da porta do Central. Conversar com ele, ver seu caderninho de autógrafos, incentivá-lo a cultivar essa ilusão e esse sonho de adolescente e não deixar que a vida o faça cada dia mais velho e cada vez mais soturno. Gostaria de poder dizer a ele que um dia, há muito tempo atrás, eu corri como um louco no meio da chuva para conseguir um autógrafo do Ivan Lins e o conservo até hoje. Foi o único! Não houve mais oportunidades? Não houve mais ilusões! Não há mais sonhos!

Espero mesmo que meu amigo desconhecido da porta do Cinema Central consiga manter seus sonhos e seu caderno de autógrafos por toda sua vida.

Lafaiete em Prosa e Verso, 2001;(VII):30-1.

BUDA

BUDA

Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo.

 

Guardar raiva é como segurar um carvão em brasa com a intenção de atirá-lo em alguém; é você que se queima.

 

É a própria mente de um homem, e não seu inimigo ou adversário, que o seduz para caminhos maléficos.

 

Um amigo falso e maldoso é mais temível que um animal selvagem; o animal pode ferir seu corpo, mas um falso amigo irá ferir sua alma.

O RISCO DO SILÊNCIO – POESIA ENGANJADA

andre Joaquim

Conheci o André Luiz Joaquim de Oliveira (André) através da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora – LEIAJF e comecei a ler o seu livro na 3ª Feira Literária de Rio Novo.

As poesias de André são densas, com grande conteúdo filosófico e mostrando a realidade de nosso dia a dia. De “Jogou o papel do chão… até …atirou em mim e fiquei em silêncio” quantos silêncios fizemos e deixamos que tudo acontecesse sem que interferíssemos  naquilo que nos agride e nos faz mal?

“Nascemos ou fomos nascido?

Viver é imposto.

Da rua ou da janela

Tudo passa.

Seguimos ou perseguimos.

Rebanho ou passarinho.

Da vida não se entende,

Apenas que se faz o dia após o dia.”

A poesia representa a ideia de que não somos livres para viver nossa própria vida se não acordarmos para ela. “Só a mentira não muda: Que somos livres!”

Depois ele questiona “Deus ou nada”

“Onde estará o pai ou a mãe da criação?

Podemos ser órfãos?

Estará em tudo?

Em nossa imaginação?

Ou em algum lugar paralelo do universo?

Ou será o universo?

Saberá Ele que é nosso pai?”

A poesia de André enche-nos de questionamentos importantes sobre nossas vidas e o que queremos fazer dela.

“O fim da ilusão

Na juventude somos o centro do universo.

Quando passa o tempo vemos a verdade.

Onde belos jovens se tornam simples operários.

A vida pode ser muito previsível.

Eu só tenho uma caneta cuja tinta é sangue e um rifle guardado.

Até quando o segundo ficará em silêncio?”

O livro “O RISCO DO SILÊNCIO – POESIA ENGAJADA” faz parte hoje dos meus livros de poesias preferidos e recomendo que todo mundo que goste de poesias procure conhece-lo.

Vale a pena ler “O risco do silêncio”.

SONHADOR

Chamaste-me um dia: – Sonhador!

E eu, eu sonhava com castelos no ar,

Com um puro e belo jasmim

Que mostrava-me sempre o seu perfume…

 

Chamaste-me um dia: – Sonhador!

E na mente eu esperava encontrar

Um perfeito par, um doce amor,

Um lindo dia, um beijo ardente…

 

E no meio destes meus sonhos,

Havia luz, paz, alegrias,

Havia uma música envolvente…

 

Então o abismo do real abriu-se,

Os castelos foram-se

E eu deixei de viver intensamente!…

 

SONHADOR

O MESTRE

mestre

Ele entrara no ônibus, todo de branco, pasta verde de oleado sob o braço, como todo acadêmico iniciante voltando para casa, mostrando que fazia Medicina. E era daqueles que respiravam Medicina, sonhavam com Medicina, comiam e descomiam Medicina. Coitado!

De repente, encontra um professor. O mestre, tentando ficar incógnito, lia um jornal, ouvia qualquer coisa com fone de ouvidos e, como detestava andar de ônibus, principalmente interurbano, e detestava estar no meio de muita gente, queria, a todo custo, permanecer omisso.

O acadêmico viu o mestre e não se conteve:

– Mestre, eu não acredito. A sua presença só pode aumentar o prazer da minha viagem.

– Sim!? – respondeu o mestre tímido. – Você é meu aluno?

– Sim, mestre. Eu tenho o prazer e a honra de ser um dos seus pupilos.

O ônibus ainda parado na rodoviária, mas quem tentava entrar ou fazer alguma coisa dentro do ônibus era abalroado pelas palavras idiotas do aluno puxando o saco do mestre.

– O que o senhor está ouvindo? – pergunta o aluno. – Aposto que se trata de algum último congresso participado pela sua pessoa – respondeu o acadêmico, sem esperar que o professor se manifestasse.

– Não, é…

– Algum tratado de cardiologia?

– Não! – respondeu o mestre, já entre a vergonha e a raiva.

– Mas algum trabalho científico há de ser, com certeza…

– Não!

– Mas como não? Um mestre de igual sapiência não estaria perdendo tempo com algo que não lhe servisse para aumentar ainda mais os conhecimentos.

– Estaria sim. – responde o mestre.

– Mas para que o senhor não perca mais o seu tempo com bobagens, por que não aproveitamos esse tempo imenso de três horas de viagem e discutimos a vida dos “platelmintos e helmintos”? Eu adorei a sua última aula. Aquela que falava dos horrores do Shistosoma mansoni no fígado humano. É maravilhoso!

– Meu filho, eu preferiria…

– Continuar ouvindo o discurso que vai fazer na tese de doutorado!

– Não!

– Mas então, mestre, eu não sei o que o senhor pode estar ouvindo nesse aparato moderno que desperdiça o tempo do ser humano. Aliás…

– Aliás, eu quero que você se assente e me dê sossego – diz o mestre irritado. – Quero ficar quieto.

– Se o mestre não está se sentindo bem… Posso fazer alguma coisa? Não sei muito. Talvez saiba um milionésimo do que é seu arsenal cerebral, mas quero ajudar.

– Se quer ajudar, meu amigo – diz o mestre irritado – deixe que as pessoas passem e se sentem. Sente-se, você também, eu estou bem.

O acadêmico percebera, então, que todos ou quase todos os passageiros do ônibus ainda estavam para entrar no veículo e que ele atrapalhava a tudo e todos. Liberou a passagem, deixou que tantos e tantas se assentassem e então procurou pelo seu lugar que outro não poderia ser que ao lado do mestre. Ao vê-lo, o professor quase teve um acesso de cólera. Tentou dormir, mas os olhos do garoto não paravam de observar com paixão de fã o mestre inteiro.

– Você não consegue dormir? – perguntou o professor.

– Não, mestre. Tento captar telepaticamente o que o senhor escuta nesses fones, para ampliar meus conhecimentos.

O mestre não se conteve. Arrancou dos ouvidos os fones e meteu-os nos do aluno. Levantou-se, puxou a campainha e desistiu de viajar.

O aluno continuou a viagem. Precisava chegar de branco e pastinha verde escrito Medicina na sua cidade. Precisava mostrar para a população que ele era o melhor.

Continuou a viagem chorando decepcionado. Mas não tirou os fones do ouvido por mais que detestasse e fez a viagem inteira ouvindo “Menudos”.

Maloca Querida. 1998:11-14.

VELHICE I

 

Arabescos de nuvens no céu…

Na vitrola um tango antigo,

Cheirando a mofo…

A noite cobre o mundo com seu véu,

Eu me encontro só, comigo,

Cheirando a mofo…

 

Não me soltam as asas,

Não me olhas os olhos, as falas…

Isolado aqui estou,

Vôo preso a mim por sobre casas,

Sinto arder o choque nas costas, de talas

Da solidão em que estou…

 

Na vida tudo passa,

Na vida o tempo corre

E no instante de mais graça,

Vem a morte e a gente morre!…

 

Não há sonho, nem esperança,

Não há luz que não se apague.

Não haverá nada que à criança,

A infância perdida lhe pague!

Tango-homem-com-homem2

Obs: No principio, o tango era dançado entre homens, como é o Sirtaki, dança tradicional grega. Levou mais de 20 anos até que o tango fosse dançado com uma mulher, a partir de 1910. Tango antigo

SARAUS DE POESIA

Os Saraus de Poesia estão voltando a acontecer com mais regularidade atualmente e isso mostra a necessidade que o povo apresenta pela cultura. Hoje se faz saraus em vários locais do país e com um público muito bom. Temos visto convites e propagandas de diversos encontros de escritores e poetas para lerem suas poesias e mostrarem seus trabalhos em reuniões que por muito tempo não existiam.

Realizamos um Sarau de Poesias durante a 3ª Festa Literária de Rio Novo – MG, com um público que chegou a surpreender.

Em Juiz de Fora temos o prazer imenso de participar do Chá com Poesia, iniciativa do querido Jorge Lenzi. O grupo vem se reunindo na última segunda-feira do mês na Biblioteca Pública Murilo Mendes (BMMN) e desde julho na Locadora de Vídeo e Espaço Cultural Excalibur na Rua São Mateus (EXCALIBUR).

Nesses encontros, recitamos poesias próprias e de autores conhecidos, mas o grande objetivo é a integração dos poetas e escritores da cidade. Vale a pena conferir o próximo encontro que divulgarei na minha Fanpage (https://www.facebook.com/arturlaizoescritor/).

GUIMARÃES ROSA

Guimarães Rosa foi homenageado esse ano na 3ª Festa Literária de Rio Novo – MG.

João Guimarães Rosa foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata. Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro.

A cidade homenageou o escritor com faixas com suas frases nos prédios da praça. Seguem as frases, quer dizer as fotos, quer dizer as fotos das frases.