D. CLEUZA – TERCEIRO CAPÍTULO

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III

_ O relato é todo esse – disse Gilberto ao seu superior na delegacia. – O rapaz disse que ouviu o grito da filha da velha e entrou no quarto onde ela benzia os outros e viu a cena que o senhor tem em mãos nas fotos.

_ Não houve mais nada de anormal que ele possa ter percebido?

_ Senhor, ele disse que achou estranho a casa estar vazia e silenciosa e a demora em ser chamado para a reza.

_ Ele vai sempre se benzer? – perguntou o delgado Pires.

_ Pelo visto é um desses viciados em benzedeiras, em misticismo e gurus, que não levanta da cama sem saber o que o mundo espiritual lhe reserva para aquele dia.

_ E ele disse que ninguém quereria fazer mal a essa mulher.

_ Sim. Segundo ele ela era querida por todos no bairro e, quiçá, pela cidade toda.

_ Essas mulheres que benzem e rezam têm sua clientela fiel – disse o delegado Pires. – O que acha tenente?

_ Ainda não sei o que achar, delegado. Mas é um crime hediondo que não podemos deixar passar de qualquer forma. O rapaz pode não estar falando a verdade. A moça pode não estar falando a verdade. Há tantos casos de filhos que matam os pais sem motivo algum. Agora – Gilberto se levanta e continua – quem é esse sujeito de preto?

_ Se é que ele existe.

_ Sim, se é que ele existe.

_ Eu preciso recolher os detalhes da cena do crime e ainda ouvir esses dois separados – diz Gilberto.

_ Fique a vontade, tenente.

Gilberto volta então a casa de D. Cleuza e anda pela casa toda antes de entrar no quarto de reza.

A casa é simples e não há nada que possa lhe dizer alguma coisa de diferente. Era uma casa simples e sem luxo. A mulher vivia daquilo que os desesperados lhe pagavam para ser bentos. Há anos desenvolvendo esse trabalho espiritual, a velha vivia na pobreza e com mais quatro pessoas na casa. Dava pra perceber que a mocinha que ele já conhecera dividia o seu quarto com outra pessoa e no outro quarto também duas camas, deveriam dormir outras duas pessoas. Retratos antigos não diziam muita coisa. Retratos novos, uma infinidade, pareciam ser de todas as pessoas que a velha recebia no seu quarto de orações.

De volta à cena do crime, Gilberto vasculhou cada centímetro do espaço. Parecia que, apesar de apinhado de santos, velas, incensos e outras parafernálias comuns em altares e locais desse tipo, não havia nada que pudesse ser ligado ao crime.

A velha tivera seu pescoço cortado por uma lâmina potente, mas não estava ali. O assassino a levara consigo? Havia sangue no chão embora o corpo já houvesse sido retirado e encaminhado ao Instituto Médico Legal. Não havia um pelo, um deslize que o culpado possa ter deixado. Parece que ele jamais estivera ali.

Precisava de repente ver o corpo. Será que ali ele encontraria alguma informação?

STEVEN SPIELBERG

“As pessoas esqueceram como contar uma história. As histórias não têm mais um meio ou um final. Elas normalmente têm um início que nunca pára de começar.”

“Ao contrário de muitos amigos, eu nunca tomei LSD, mescalina, Coca ou coisa parecida, enquanto eles subiam pelas paredes, eu assistia TV.”

“Todos nós, em cada ano, somos uma pessoa diferente. Eu não creio que sejamos a mesma pessoa durante toda a nossa vida.”

spielberg

ODEIO TE AMAR!

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Odeio te amar!

Odeio pensar em ti

Todo o meu dia.

Ultrapassar meu dia pensando em ti,

Deixar de viver-me para viver-te,

Deixar de ser eu para ser somente tu,

Procurar em mim resquícios

Do nada que sobrou,

Do nada que sou,

Do… sou?

Odeio amar-te!

Preferia minha solidão sozinho

Que a minha solidão

Acompanhado do teu descaso.

Adoraria não te ter,

Adoraria não ter ninguém

Do que ter-te sem ter-me,

Sem ter-nos,

Sem ter nada!

D. CLEUSA – SEGUNDO CAPÍTULO

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II

A moça não teve tempo pra pensar sobre o que fazer, mas ainda assim o acompanhou até a sala de estar da casa e lhe mostrou o telefone.

Fábio ligou para a emergência policial e em poucas palavras relatou o que vira. Precisava que a polícia viesse o mais urgente possível. Precisava que alguém lhe dissesse que aquilo não era verdade. Sim, ele tinha certeza que ela estava morta.

Não demorou mais de quinze minutos e um policial a paisana, acompanhado de três outros fardados entraram na casa. Olharam cada cômodo e somente depois vieram dar atenção ao casal que sentado na poltrona da sala, chorava.

_ Quem pode me dizer o que houve? – perguntou o tenente Gilberto.

_ Eu, senhor – levantou-se Fábio.

_ Eu sou o tenente Gilberto – apresentou-se ele.

_ Eu sou Fábio – disse o rapaz. – Foi horrível.

_ O que o senhor viu?

_ Eu estranhei a demora em ser chamado pra benzer – explicou o rapaz, – e de repente ouvi a Magali gritando. Eu corri para o quarto onde D. Cleuza benzia e vi aquela cena que o senhor também viu.

_ Vocês não mexeram em nada?

_ Claro que não, tenente.  Eu não deixei nem a filha dela se aproximar muito. Conheço essas coisas de investigação. Conheço de ver filmes, quero dizer.

_ Você viu alguém que possa ter feito isso? – pergunta o tenente Gilberto.

_ Não sei, senhor. Eu acho que ninguém iria querer fazer mal a D. Cleuza.

_ Ninguém. Tudo bem. Conte-me exatamente o que você viu ou sabe.

Fábio tentou lembrar-se dos mínimos detalhes que pode. Quem estava na sala quando ele chegou, quais a pessoas que entraram antes dele e o tempo que ficou esperando. Lembrou-se do homem de preto que quase caiu ao tropeçar no seu pé ao sair depressa sem olhar pra trás. Lembrou-se por fim do grito de Magali.

_ Quem é esse homem? – perguntou o tenente Gilberto.

_ Não sei! Nunca o vi aqui.

_ Será que a moça não se lembra dele?

_ Pode ser, mas justo hoje o Sebastião não veio.

_ Quem é Sebastião? – perguntou o militar.

_ O filho mais velho da D. Cleuza que fica ali na porta e recebe as pessoas. Ele sim conhece todo mundo.

O tenente perguntou à filha da médium se ela conhecia o tal homem de preto e a menina aos prantos disse que não e que nem mesmo se lembrava de nenhum homem de preto na sala de espera.

_ Tudo bem. Vamos tirar o corpo, enviar para o IML, mas vocês dois terão que nos acompanhar a delegacia para dar depoimentos.

_ Tudo bem, tenente – concordou Fábio esquecendo-se que não poderia sorrir, mas achando o máximo estar envolvido em uma cena de crime.

É DIFÍCIL MORRER

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Quando eu escrevi “É DIFÍCIL MORRER” eu quis mostrar a vida de pessoas que na realidade não têm uma vida plena. Tive a ideia dentro da UTI quando recebi um morador de rua politraumatizado e comecei a pensar sobre a vida desses pobres coitados e o que poderia esperar por eles depois de um tratamento que nem sempre seria isento de deixar sequelas importantes físicas, mentais e psicológicas.

Não foi minha ideia escrever um livro técnico, mas utilizar um hospital e uma UTI para desenvolver uma história de ficção onde os personagens cruzam suas vidas e aprendem uns com os outros sobre vida e sobrevivência no mundo atual. Estamos sempre aprendendo com a vida a viver. E aprendemos com as pessoas que conosco aprendem também a viver as suas vidas. Mas é esse conjunto de elos entre os seres humanos que nos fazem mais fortes, ou mais fracos, seguir em frente, ou desistir. Enfim, nesse livro os personagens vão dar suas vidas para que os outros tenham suas vidas melhores.

José Maurício é um pobre coitado sem teto que se vê em uma situação de quase morte. Atropelado por um desconhecido, ele é encaminhado moribundo para o CTI de um hospital. Cuidado pelo incansável Dr. Eduardo, entre momentos de lucidez e coma ele relembra a vida de erros e acertos e a busca incessante de sobreviver em um mundo que sempre lhe fora hostil. Por algum tempo, usou o seu corpo para ganhar o sustento de cada dia e foi amado por homens e mulheres. Mas o destino quis que ele continuasse pobre, sem família, sem ninguém. A envolvente atuação do medico na recuperação do paciente fez com que Eduardo encarasse todas as mazelas de sua própria vida de forma positiva e desse a volta por cima. Eduardo iria sobreviver à sua própria vida? José Maurício sairia do hospital recuperado?

EMPADA

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Sem dúvida alguma, empada é o salgadinho que eu mais gosto. Sempre gostei de comer empada com café. Algumas pessoas acham muito engraçado eu tomar café e comer salgadinho, mas combina bem empada e café, quibe e café, cigarrette e café, enfim tenho que dizer também que eu adro café. Tomo litros de café por dia. Pena que não possa comer toneladas de empadas por dia.

E gosto de empada simples. Só de frango! Não quero empada com catupiry que não é verdadeiro e que só serve para ocupar o lugar do frango. Empada de camarão é muito gostosa também, mas empada de carne seca? Empada de linguiça? Não acho que combine e não quis nem mesmo experimentar.

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Já a empada de queijo é diferente. Uma ou outra, pouca, é bom, mas não compete com a de frango simples. A empada tem que ter a massa quebradiça – dizem massa podre, nem sei porque –, tem que ter um recheio suculento, pode até ter azeitona.

Em Juiz de Fora, hoje, temos várias casas de empada com mil sabores diferentes. Adoro comprar algumas e tomar café da tarde com empada de frango.

Que tal uma empada agora?

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VOAR ALTO

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Talvez eu seja

O mais ínfimo dos mortais,

E tenha a mente

Assim em desordem,

Por não conseguir concatenar idéias,

Por não conseguir superar barreiras,

Por me perder em coisas fúteis,

Por não me deixar crescer,

Por não me deixar evoluir,

Por me atar a terra

E não me permitir alçar vôos…

Talvez não consiga,

Nem em outras existências futuras,

Não ouvir mais a razão, mudar o coração,

Ter olhos mais abertos,

Aceitar melhor meus desejos,

Saltar sobre os gradis que me prendem,

Libertar-me das correntes racionais,

Voando alto, no mais puro sonho,

Sem pensar que sou o que sou:

– Subespécie dos menores racionais -,

Procurando uma saída e cada vez mais

Me enterrando na sordidez

De um modelo pré-fabricado

Que não me agrada,

Onde não encontro nem mesmo paz…

Talvez eu esteja aqui, apenas por estar,

Não tenha que mudar nada,

Não tenha que tentar nada…

Mas a necessidade de voar alto, sem poder,

Me faz mais mal que o peso do chão.

Se estou aqui, não posso jamais

Estar por estar… estar por si só…

Se estou aqui, minha inconstância,

Minha luta interior, meus anseios,

São provas de que o ínfimo pode ser máximo,

E que talvez, esteja no caminho errado,

Mas possa ainda mudar, me recompor…

Refazer-me?… Haverá tempo?

 

Coisas da Noite, poesias, 1997.

D. CLEUSA (conto em cinco capítulos)

Meus amigos, inicio hoje um conto de assassinato de uma velha benzedeira. Uma mulher a quem todos amavam, mas que foi encontrada morta na sala onde benzia e praticava o bem.

Fora degolada! Quem poderia ter feito tamanha atrocidade? Fábio era uma pessoa que sempre ia à casa da velha se benzer, naquele dia ele afirma que saiu correndo do interior da casa um homem de preto. Quem seria esse homem de preto? Quem matou D. Cleusa?

benzedeira

Capítulo I

A sala era a mesma que ele conhecia de várias e várias vezes que ali estivera em busca de apoio espiritual. As paredes sujas e com rachaduras que iam do teto ao chão, alguma tinta descascando aqui ou ali. Não se importava o rapaz, sentado sempre em uma das cadeiras junto de várias pessoas que normalmente aguardavam.

Ele ia toda semana naquela casa e se sentava naquelas cadeiras e aguardava vários minutos, houve dias de esperar mais de uma hora. Mas não importava. A sua vida era demais atribulada para que ele aguentasse sem que a médium, D. Cleuza, o visse, sem que ela o rezasse e lhe dissesse que ele iria conseguir o que ele queria, sem que ela lhe dissesse aquilo que ele queria ouvir. Era como um vício estar ali toda semana, esperar naquelas cadeiras, ver outras pessoas que por ali andavam em busca de uma reza, de uma palavra de conforto. Ouvia o que D. Cleuza lhe dizia, algumas vezes chorava dentro do quarto onde a velha rezava em um altar misturado entre as religiões católica e umbandista. Saia sempre aliviado. Parecia que estava pronto pra enfrentar o mundo mais uma vez… Até a próxima semana.

Fábio era mais um dos milhões de brasileiros que precisam buscar um apoio espiritual em alguma benzedeira, mãe de santo, padres, enfim, alguma entidade religiosa que, na certa, vai lhe dizer tudo aquilo que ele sabe e que na realidade, só precisa que alguém lhe repita.

Não havia ninguém esperando naquele dia, e ele estava estranhando a demora em ser chamado a entrar no quarto mais sombrio que a casa toda. Já se passaram quase dez minutos desde que de lá saíra um homem vestido de negro com um chapéu que quase lhe escondia todo o rosto e que quase tropeçara nos pés de Fábio. Ele nunca tinha visto esse homem na casa de D. Cleuza em nenhuma das vezes que ali fora.

O silêncio da casa o incomodava. Não havia nem mesmo as crianças que de vez em quando corriam pela escada fazendo alguma algazarra e eram repreendidas pela filha de D. Cleuza.

Era sempre a mesma coisa alguém gritando com as crianças, alguém gritando com alguém. Alguém estava gritando.

Fábio deu um pulo da cadeira ao sentir, mais que ouvir, que alguém realmente gritava. Levantou-se de pronto e precipitou-se pela casa que já conhecia e ao chegar perto do cômodo, para ele sagrado, viu a porta aberta e Magali chorando e gritando, parada no vão da porta.

Ele chegou mais perto e antes que pudesse perguntar alguma coisa, teve de segurar a filha da médium que caia desmaiada em seus braços.

Ele a depositou no chão mesmo e voltou seus olhos para o cômodo e quase também ele gritou com a cena desesperadora que via. Levantou-se do chão, largando a moça desmaiada e entrou no cômodo. Alguém profanara o lugar sagrado de D. Cleuza, alguém profanara…  Alguém matara D. Cleuza! A imagem que ele tinha na sua frente era a coisa mais aterrorizante que ele já vira. A sala estava coberta de sangue, tudo estava repleto de sangue e a vítima, D. Cleuza, estava estirada no chão com uma mancha de sangue ao seu redor e um corte profundo na garganta. O cabelo branco da velha se misturava no sangue ainda quente que escorria agora tímido, pelo chão sujo de restos de vela e incenso. Ele não podia acreditar no que via. Estava perplexo demais para pensar.

Ainda assim, procurou com os olhos Magali e a mocinha já acordava do susto. Ele a agarrou pela mão e lhe disse enérgico como jamais fora.

_ Precisamos chamar a polícia.

HENRY FORD

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O insucesso é apenas uma oportunidade para recomeçar com mais inteligência.

O homem que empenha todo o seu trabalho e imaginação em oferecer por um dólar o mais possível, em vez de menos, está condenado ao sucesso.

Se o dinheiro for a sua esperança de independência, você jamais a terá. A única segurança verdadeira consiste numa reserva de sabedoria, de experiência e de competência.