AS BRUXAS – PRIMEIRO CAPÍTULO

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Naquela cidade pequena do interior, na última sexta-feira de cada mês, reuniam-se as cinco mulheres mais velhas do município para tomar um chá à meia noite. Sim! Um chá a meia noite! As famílias delas não se importavam com a reunião das velhas e como era uma cidade pequena, ninguém nunca vira ou ouvira dizer o que acontecia no chá da meia noite.

Naquele dia, as mulheres passaram o dia se preparando para o chá. Maria das Dores fez broinha de milho, Maria do Rosário fez pão de queijo, Maria da Conceição fez um bolo de aipim e por conta de Maria da Paz e Maria do Perpétuo Socorro ficaram o café e o chá. Elas moravam cada uma em sua casa com suas famílias e era um assunto quase proibido falar do chá da meia noite.

Em especial, naquele dia, comemorava-se o dia das bruxas em todo mundo. O chá das velhas tinha um sabor especial e elas poderiam utilizar de seus conhecimentos para rezar, benzer e fazer alguns feitiços. Eram todas bruxas! A cidade toda sabia disso, mas também sabia que todos eram protegidos pela magia das velhas e, caso alguém fizesse alguma coisa para interferir, sofreria algum feitiço que não se livraria mais. Maria das Dores, em casa, fazendo as broinhas, até cantava alguma musica do tempo de criança, algo que ninguém mais se lembraria hoje em dia. Preparava a massa com amor e colocava junto um pouco de magia para que a reunião pudesse ter forças.

Um neto de Maria das Dores, João Pedro, JP, era um menino muito arteiro e sagaz. Passou boa parte do tempo observando a avó na lida da cozinha. O menino de doze anos estava na mesa da cozinha fazendo seus deveres de casa e vendo a avó misturar a farinha de milho e rezar alguma coisa, colocar o açúcar e cantar uma musica, colocava outro ingrediente e misturava com a energia que saia de suas mãos. JP, mesmo tendo almoçado, queria comer a broinha da avó quando ficasse pronta. Todo mês era a mesma coisa, ela fazia um quitute e ele só poderia comer se sobrasse, no dia seguinte. Uma vez, lhe disseram que eram broinhas enfeitiçadas e que se ele comesse viraria um sapo.

– Vó, posso ir com você hoje no chá?

– Claro que não, menino – respondeu ela. – Onde já se viu? O chá é a meia noite e é hora de criança estar dormindo.

– Mas, meia noite é hora de tomar chá? – perguntou ele parando o que estava fazendo e olhando para a vó.

– Toda hora é hora, menino. Volte a estudar.

E ela voltou a mexer a massa e a cantar uma música antiga. O menino abaixou os olhos para o caderno, mas não lia o que estava escrito ali. Pensava em um jeito de ir ao chá das velhas. Ele tinha que ver o que acontecia e comer aquelas broinhas hoje ainda. Será que eram mesmo enfeitiçadas?

A noite chegou e Maria do Perpétuo Socorro, a única das velhas que morava sozinha, abriu sua casa para entrar o ar da noite e, também cantando músicas antigas, defumava a casa com ervas cheirosas. Usava alecrim, manjericão, malva e outras que apanhava a esmo no quintal. Gostava daquele ritual de purificar a sua casa para receber as amigas na última sexta-feira do mês. Preparara tudo para coar o café quando as amigas chegassem e colocara a mesa no centro da sala com tudo o que precisariam. Estavam sobre a mesa quatro castiçais de pedra colocados em cada ponto relacionado aos pontos cardeais, norte, sul, leste e oeste. Em cada castiçal uma vela de uma cor. No leste, uma vela negra representava a Deusa mãe, no Oeste, uma branca, representava Deus pai, no Sul, uma vela vermelha para as entidades que estivessem presentes no chá e ao Norte uma vela verde para a natureza e os seres elementais. Ainda dispostos sobre a mesa, uma taça para água, uma para vinho, sal grosso, um pentagrama, uma adaga, um tarô, uma vara mágica e um caldeirão de ferro. Toda bruxa que se prese tem um caldeirão de ferro. Quando as amigas chegassem ela acenderia as velas e começariam o ritual da noite antes de tomarem o café, antes de tomarem o chá e se fartarem de comer.

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