VIAGEM III

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É claro que do tempo em que tentávamos provas de residência médica, houve muitas viagens engraçadas.

Houve aquela primeira prova que fomos fazer em Belo Horizonte ainda em outubro – formar-nos-íamos em dezembro – e o ônibus era quase todo da nossa turma da faculdade. Fazíamos uma confusão dentro do veículo e, me lembro bem, logo depois da parada em Conselheiro Lafaiete, ainda tínhamos um longo percurso até Belo Horizonte. “Lá pelas tantas”, eu resolvi dizer ao Júnior ao meu lado, que estava com vontade de urinar – o ônibus na época, não tinha banheiro.

– Pede para parar o ônibus – disse-me ele.

– Não – respondi. – Dá pra esperar.

– Será que dá? – perguntou-me ele.

– Dá sim – respondi com convicção.

– Sabe o que é pior? – começou ele. – É que o rim não sabe. Aí o sangue passa pelo glomérulo e o glomérulo filtra e vem aquela gotinha de urina pelo ureter – ele olhou para mim – e chega na bexiga e faz “pim”.

– Chato! – respondi. – Fica quieto!

Mais cinco minutos de viagem e ele virou-se para mim e disse:

– Vem escorrendo pelo ureter e “pim”

– Para, cara – disse eu.

– Mas o rim não para – disse ele sem sorrir, – “pim”.

– Fica quieto!

O resto do ônibus conversando outras coisas, todo mundo alegre e tenso pela prova a vista e eu olhava para ele e ele dizia:

– “Pim”.

O “pim” realmente doía na bexiga repleta de urina e, acredito, no corpo inteiro: “Pim, pim, pim”.

Eu olhava para sua cara de sacana, impassível como lhe é próprio, sem sorrir, e ele dizia:

– “Pim”.

Não aguentando mais, logo depois me levantei para pedia ao motorista que parasse o ônibus e disse para o resto da turma:

– Se alguém me “gozar” eu meto a mão.

ESTRELA DA MANHÃ – ANDRÉ VIANCO

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RESENHA

O livro conta a história de Rafael um garoto de doze anos que vive com a mãe e o irmão mais velho e sofre de bullying na escola. É atormentado por um colega de sala mais forte que ele que acaba batendo nele quase todos os dias por razão nenhuma.

Rafael que sente a falta do pai que morrera tempos atrás, não aguenta mais a perseguição do colega. Na escola tanto a professora quanto a diretora fazem vista grossa às agressões do colega. Em casa, Rafael não tem apoio nem da mãe, nem do irmão mais velho. Ele está perdido, sofrendo e sozinho.

O menino descobre então, através de um aplicativo no celular um site “Pé na tumba” onde pode contratar um guardião. E acaba contratando um fantasma, Estrela da manhã, que estaria com ele para protege-lo por sete dias. Só que no contrato se diz: sete dias, sete noites, sete mortes. Rafael só se dá conta de que estava em uma situação complicada quando acontece a primeira morte correspondente ao primeiro nome da lista que dera ao espírito Estrela da Manhã. O que teria que fazer para reverter esse processo?

O AUTOR

André Vianco é um grande autor nacional da literatura fantástica. Começou sua arrancada para o sucesso quando publicou OS SETE e, ressuscitando sete vampiros seculares portugueses no Rio Grande do Sul, fez uma estreia muito boa.

Já publicou mais de vinte romances fantásticos e está hoje entre os preferidos desse gênero no Brasil.

A VIDA PASSA

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O sol se esconde de trás das montanhas,

A tarde que cai é triste, até medonha…

 

O vento da noite agitando meus cabelos,

Me trás desejos que não posso tê-los.

 

Me faz cantigas de ninar, de sonhar,

Me lembra o som doce do mar…

 

Na terra que racha aos meus pés,

Na sombra que me faz ter fé

 

No dia seguinte, na aurora atual,

No encontro de frases, num ritual

 

De anseios e de desejos

A vida me passa e me cobre de beijos…

VIAGENS II

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Outra vez, também durante uma volta minha de Conselheiro Lafaiete para Juiz de Fora, o fato foi muito interessante.

Entrei no ônibus na rodoviária e a cidade inteira estava “pegando fogo” com o CARNALAFÁ – carnaval temporão – se bem me lembro, em agosto.

Claro que, como sempre, me sentei à janela e, som ligado, fones de ouvido, óculos escuros, tentava suportar as próximas quatro horas de viagem com a “feliz” baldeação em Barbacena.

À minha frente, sentaram-se duas das quatro mocinhas de dezessete anos mais ou menos, que entraram no ônibus depois de mim. Riam muito e demonstravam que estavam bêbadas, Isso às quatorze horas de um domingo ensolarado.

O ônibus saiu da rodoviária e não andou dez minutos, ainda no centro da cidade, a menina loura, a mais nova do grupo, começou a vomitar. O cheiro de comida azeda e álcool invadiu o ônibus. A amiga deu uma toalha para que nela a outra vomitasse.

Quando o ônibus pegou a última avenida em direção à BR 040, a loura vomitada, mas refeita, resolveu sacudir a toalha na janela e, para espanto de todos, começou a gritar:

– Para o ônibus, para o ônibus!

O auxiliar de viagem veio até elas e a outra do lado explicou:

– Ela vomitou na toalha e sacudiu na janela. A dentadura dela caiu no asfalto.

Contive o riso, mas o ônibus parou e as quatro bêbadas saíram a procura da prótese dentária da garota.

Assustei-me ao ver aquela garota de dentaduras, mas são coisas reais de uma população menos favorecida.

É claro que elas não encontraram a dentadura e muito menos voltaram para o ônibus que teve de parar na garagem para lavar o estrago da bêbada.

Apesar do medo de não conseguir pegar o outro ônibus, consegui completar minha viagem, não sem pena da pobre garota que tão jovem já não tinha nenhum dente.

IGUAL

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Igual?

Não sei!

O mundo passa,

O sonho agita,

O futuro é sombrio,

Mas há esperança ainda…

 

Os dias são os mesmos

E as pessoas são as mesmas

E os atos são os mesmos,

Tudo enfim!

E nós deslizando no turbilhão do tempo…

 

O mundo é o mesmo

O sonho passa

O futuro agita

A esperança… Tudo tão sombrio.

 

Não há o que dizer,

Não há o que fazer,

Não há talvez, mais nada!…

 

O burburinho de vida ao longe,

Vida que tento segurar,

E que me vai tão longe.

 

Tudo igual!

Não sei.

O que acontecerá no futuro?

O que virá a ser o mundo?

Onde estarei eu?

A MANSÃO DO RIO VERMELHO

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O aparecimento do corpo decapitado de uma jovem loira em um terreno baldio dá início a uma busca pelo assassino. Mobiliza a polícia e a população em busca da verdade. Seria mais um assassinato do serial killer do norte do país?

Jaime é um psicólogo que adora mistérios e sabe quem é o verdadeiro autor de crime tão brutal. Mas ele é amigo do assassino. E, a cada dia que conhece a verdade, mais cresce o seu fascínio pelo novo morador da cidade, o milionário Frederich Augsparten. Jaime passa a frequentar a Mansão do Rio Vermelho e a conhecer todos os fatos que estão envolvidos na história da casa de mais de trezentos anos.

Quanto mais se envolve com o vampiro, mais percebe que, para o seu próprio bem e o de sua amada Patrícia, não poderá deixá-lo nunca mais. No entanto, forças que poucos conhecem e dominam se mobilizam para pôr um fim à presença de Augsparten na pequena cidade de São Luiz.

O que poderá impedir que o vampiro seja exterminado de uma vez por todas?

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Meu novo livro chega às livrarias do país esse mês ainda. A história do vampiro Frederich Augspartem é muito dinâmica e intensa. Vale a pena conferir!

ESPERANÇA

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O corpo moribundo, respirando por meio de aparelhos, ainda mantinha presa a alma que pensava já em unir-se a outras nos planos invisíveis. Os olhos baços, a pele ressequida, o coração sem vontade de bater, o ar que já não filtrava nos alvéolos mesmo empurrado pelo ventilador aos pulmões… O corpo se consumia na UTI.

E na hora da visita, a filha entrou e chamou por ele. Passou a mão pela sua testa suada e chamou por ele. Descobriu um pouco o seu corpo, quase uma ossada e chamou por ele… Conversou com ele. Falou do tempo. Falou da casa. Falou da mãe… Estavam sozinhas as duas esperando que ele voltasse para casa. Sentiam muito a falta que ele fazia e queriam a todo custo que ele estivesse lá.

– Você vai voltar, não vai, pai? – perguntou-lhe alto a filha que segurava a mão do moribundo.

E o doente apático, coma grau três, respiração mecânica, tubos e mais tubos enfiados por quase todos os seus orifícios, continuava a consumir-se deitado naquele leito.

A moça, filha única do velho canceroso, vendo de longe o médico de plantão, aproximou-se e sorrindo perguntou:

– Ele melhorou, doutor?

– Não – respondeu o médico procurando ajuda-la a entender, – continua na mesma.

– Mas ele tem chance? – voltou a moça com um sorriso.

– Sim e não – respondeu o médico. – Você sabe o que ele tem?

– Mais ou menos – responde a filha.

– Ele está grave. Muito grave – disse o médico.

– E quantos dias o senhor acha que ele ainda fica aqui n UTI?

– Não sei! – responde o médico. – Ele pode…

– Ter alta brevemente – interrompeu ela o que o médico iria dizer, talvez pensando no óbito.

– Talvez…

– Ele está entendendo quando eu falo com ele? – perguntou ela.

– Acho que não – responde o médico.

– Mas ele vai ficar bom – disse ela enfática e saiu.

Não, não vai! pensa o médico. Não há como livra-lo do câncer que corroeu sua próstata e agora destrói seus pulmões e cérebro. Não há mais chances. O médico sabia que o óbito seria o próximo estágio daquele doente, mas o que fazer com a pobre e leiga filha? Dizer-lhe a mais pura verdade? Endurecer o seu coração jovem como a vida e a medicina endureceram o seu? Deixar que ela ainda tivesse esperanças e sonhasse com o retorno do pai para casa?

Simplesmente ele não sabia o que era mais certo. Gostaria muito que as pessoas compreendessem que a máquina humana envelhece. Estraga-se com o tempo e com as coisas erradas que se faz com ela. Não tem como trocar peças… A máquina morre!

Mas sempre há esperanças!

PERVERTENDO

tempo

Gostaria de viver outra vez assim:

– O meu violão, a minha Yoga,

As minhas noites vagas, porém calmas,

O meu chá, os meus pincéis e tintas,

Uma constante busca do meu pequeno,

Insignificante talvez,

Mas real desejo do desconhecido mundo.

 

Gostaria de viver outra vez assim;

– Sem saudades dos meus amigos, minhas serestas,

Tendo tempo à noite pra senti-la quente,

Sem correr atrás das minhas telas,

Sem essa constante busca do meu grande,

Demasiado grande talvez,

Mas real desejo do meu conhecido mundo.

 

Gostaria de viver novamente assim:

– Sentado despreocupado no braço de um sonho,

Embalado em cordas das quais extraísse sons,

Percorrendo noites e noites em paz, em buscas,

Podendo dar-me ao luxo de notivagar,

Bebericando despreocupadamente uma aguardente

Ou “rolando” nas ruas sem rumo, sem obrigações.

 

Gostaria de viver novamente assim:

– Como vivi há tempos e hoje os recordo,

Reclamando da vida por achá-la ruim,

Rebuscando modelos para modificá-la

E continuando e pervertendo-a aos dias atuais…

E por achar belo o que achava feio outrora,

Quero mudar o presente que no momento não me agrada!

FRIO

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Frio! Frio! Frio!

Frio como há muito tempo não fazia frio em Juiz de Fora.

Eu, atravessando a avenida Rio Branco, correndo para ir para casa o mais rápido possível, deixei cair uma moeda que rolou pela avenida sem a mínima chance de eu pega-la.

Parei do outro lado da avenida e tentando imaginar o que houvera perdido, sucumbi-me ao irreal:

E se eu tivesse deixado cair uma moeda de um real?

Se eu – imaginando-me um exemplo de economia -, pusesse esse dinheiro em alguma aplicação financeira, talvez a poupança, rendendo 1,2% ao mês, teria eu um capital violento de milhões de reais ao fim de bilhões de anos. Seria riquíssimo e o mundo talvez, nem mais existisse.

Se no entanto, menos ávaro e mais empreendedor, eu comprasse meia dúzia de ovos, talvez uns oito – não sei quanto custa uma dúzia de ovos desde que tenho que fazer dieta – e pusesse para chocar… Não sei onde. No forno de micro-ondas chocam-se ovos? Não interessa! Se desses ovos saíssem oito galinhas que dentro de um ano começassem a botar, claro, eu teria um monte de ovos para vender – não sei quantos -, a um real e recuperaria o meu real perdido na avenida, rapidamente depois de um ano e com todos os gastos que houvera de ter tido para cuidar das minhas galinhas com mais um monte de ovos que poderiam gerar ou um real ou outras galinhas – isso sem falar nos galos e frangos que eu teria que vender e enganar o pobre do gourmé que quer um belo “molho-pardo” e por baixo das penas vê apenas um pinto e não um frango…

Talvez eu comprasse meio maço de cigarros. Poderia poluir meio pulmão. Ou será que meio-poluiria o pulmão inteiro? Ou não seria nada disso?

Quem sabe “dez-quinze avos” de uma cerveja e ficaria com alguns “avos” de embriaguez se seria um “cara” alguns dividendos mais feliz?

Saber o que faria com a minha moeda que eu não sabia se era de um real ou de um centavo de real estava me levando à loucura e eu não podia ficar ali parado correndo o risco de me levarem outros reais, e, não tinha como me arriscar a debaixo de um ônibus descobrir que a moeda era ínfima.

Que fazer? Perdido na avenida Rio Branco, tarde da noite, deixei escapar a minha moeda. Resolvi que era pequena.

Mas, mesmo pequena, e se eu jogasse no bicho?

JARDIM BOTÂNICO (RJ)

Rio de Janeiro (23)

Verde, verde

Verde, amarelo

Verde, azul

Verde, branco

Olha o mico na árvore

Verde, prata

Verde, marron

Verde, patos

Verde, verde

Olha a vitória-regia

Verde, verde

Verde, branco

Verde, palmeiras

Verde, vermelho

Olha o orquidário

Verde, roxo

Verde, vermelho

Verde, bromélias

Verde de todas as cores

Olha o Cristo redentor

Verde, nuvens

Verde, sol a pique

Verde, calor imenso

Verde, paz de espírito.