FATOS CURIOSOS DE UM DIA

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“Saudosa maloca, maloca querida”…[1]

Pelo ar invadia a voz estridente da Elisa, uma louca que morava na pensão. Sua voz aguda acordava aos poucos as pessoas que dormiam naquele sábado até mais tarde.

“Saudosa maloca, maloca querida”…

Aos poucos a pensão ia se movimentado e dando ar de vida. Tia Dô, na cozinha, preparava o café que todas as manhãs servia aos moradores.

Quando nós três que morávamos no quarto da frente levantamo-nos, já haviam saído várias pessoas. Isso porque fugimos do costume: levantar-nos mais cedo que todos para irmos às aulas na UFJF, já que no sábado não teríamos aulas.

À mesa do café, pão, manteiga, alguns moradores da pensão faziam seu desjejum. O playboy velho, como mais de cinquenta anos, enrolando o cigarro de palha e dizendo ao carioca:

_ Toma conta da Elisa, manda ela para um hospital, Manuel.

_ Não tenho nada com isso, Vicente.

Vicente ontem mesmo chegara à pensão por vota da meia-noite, mandando Elisa calar-se com palavrões e recriminações.

_ Vamos fazer silêncio, porra! Quero dormir. A gente conviver com loucos é isso que dá. Qualquer dia, te encho de maconha, sua maluca.

Mas ali no café da manha ele estava sóbrio, mais humano(?).

Sentei-me à mesa e tia Dô me disse:

_ Faz uma semana que ela não toma banho. ‘Tá cheia de piolho e eu não sei mais o que é que eu faço…

Eu olhava para o café, quando o Paulo sentou-se perto de mim:

_ Escuta, fala mais como é que é a prova de matemática da UFJF.

Expliquei-lhe várias vezes como era a prova de matemática do vestibular e ele achava que como eu já faia medicina, tinha que saber como era a prova de matemática do vestibular de engenharia.

De repente, Elisa senta-se à mesa. Abre a garrafa térmica e coloca café na xícara, entornando a maior parte no pires, na mesa e fazendo a maior sujeira… Pega o pão cortando-o com a mão com gula e gestos esquivos, sinais de sua loucura. Paulo e eu continuávamos conversando e ela falando sozinha.

Levantei-me da mesa e quando dirigia-me ao meu quarto ouvi a voz da tia gritando com a louca.

Quando o Marcos e o Omar, que moravam comigo, resolveram-se levantar, todos já haviam saído e a mesa estava novamente nas sombras daquela manhã ondeo sol brilhava para alguns e deixava o casarão às escuras.

Peguei algumas roupas e me dirigi ao tanque Estava já lavando-as quando o Marquinho chegou:

_ Artur, tem sabão aí?

_ Tenho sim, vai lavar roupas também?

_ Acho que sim.

Estendi minhas cuecas e meias no varal e deixei-o com o Omar lavando as roupas deles.

Tia Dô chegou então na área e brincou:

_ Olha as lavadeiras… “lava roupa todo dia”…[2]

_ Isso mesmo – disse eu. – Lavadeira tem que cantar.

Começamos então a cantar um samba batendo na bacia de roupas. O sol agora já mostrava-se um pouco mais ao grande pátio do casarão.

Terminamos com as roupas, saímos como Paulo Matemática e o “Tcham tcham”, ou quinta sinfonia como chamava-o o Omar, ou o ouro Paulo que iam jogar bola. O último viera para Juiz de Fora para trabalhar. Iria trabalhar, futuramente se casar, morrer…

No caminho encontramos o Vicente com seu tipo especial de loucura:

_ Rapaz, transei com três gatas ontem. ‘Tô um bagaço.

_ Você ‘tà é ficando brocha, Vicente – disse-lhe o Tcham tcham.

_ E você é um filho da mãe…

Deixamos que ele ficasse preguejando no meio da rua e continuamos andando. Ao chegar à Casa d’Italia, ficamos vendo o jogo de futebol de salão, onde os paulos e alguns amigos jogavam contra um time de filhos de italianos. Os rapazes jogavam mal e ainda por cima estavam na própria casa dos adversários.

Deixamos o local e nos dirigimos ao restaurante universitário, onde como sempre, da comida, comível, todo mundo reclamava. Encontramos vários amigos da nossa sala e um ambiente muito alegre.

De volta a pensão, mais loucuras pela frente:

_ Ei – disse o Manuel ao Marcos, – você sabe aquela piada dos ovos?

_ Não.

Íamos nesse momento limpar o ralo do banheiro que já nem deixava sair água direito. O Omar fora a Barbacena encontrar-se com o irmão.

_ Tinha um pai – disse-lhe ele – que dava uma educação esmerada a seus filhos. E consumiam muitos ovos. O filho menor não podia comer sem ovos. Um dia, o pai resolveu não comprar mais ovos e o filho chorou muito. Numa certa hora, o pai, de calção, deixou a mostra os testículos, o filho virou-se para ele e lhe disse: “Pai, o senhor está com os testículos de fora”. O pai recolocando o escroto para dentro do calção, disse à mulher: “ Imagina se eu lhe ensino que isso são ovos?”

Esperávamos mais, mas infelizmente acabou. Rimos como que para fazer-lhe uma gentileza e ele se foi. Meus Deus! Só loucos, pensei.

Recolhemo-ns então ao quarto e fomos estudar bioquímica. À tare tia Dô trouxe-nos pão e sentamo-nos novamente à mesa. Incrível, o mesmo assunto, as mesmas pessoas, o mesmo momento… Uma novidade: Elisa saiu do banheiro, tomara banho e se penteara. O juízo até pareceu brincar-lhe na face, pois até conversou com tia Dô.

O banheiro era disputado e fazia-se fila para se tomar banho. Não era um banheiro muito bom, o lavatório estava entupido, o vaso sanitário não demoraria a entupir-se também e o chão era só cabelos dos moradores…

Após meu banho, saímos, Marcos e eu, e andamos pela cidade que praticamente descobríamos. Chegamos em casa e vimos a Lúcia deitada no sofá com o namorado, com certeza dormia e ele queria ver televisão. Ele e o carioca nos cumprimentaram. Na sala da frente, perto do nosso quarto, Elisa cantava:

“Saudosa maloca, maloca querida”…

Entramos para o nosso quarto e deitamo-nos pensando que inspirados na Elisa o nome de nossa república seria “Maloca querida” e monta-la-íamos o mais rápido possível. Do lado da minha cama, no outro quarto o rádio de um rapaz que fazia cursinho com certeza tocaria a noite toda.

Apagamos a luz e aos poucos fomos vencidos pelo sono. Nas nossas mentes ouvíamos ainda:

“Saudosa maloca, maloca querida”…

[1] Saudosa Maloca – Adoniram Barbosa

[2] Juventude transviada – Luiz Melodia.

Maloca querida – crônicas. 1998:115-20.

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