VIAGENS VIII

 

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É do conhecimento do todos que eu sempre adorei viajar de avião. Aliás prefiro tanto o avião ao carro que demorei bastante para tirar carteira de motorista, não por incapacidade, mas por desinteresse no objetivo principal da vida de todos os adolescentes: um carro.

Ao viajar pelas estradas sempre dizia, parafraseando todo mundo, que preferia um Mercedes com motorista, o problema são os outros quarenta e tantos lugares. Mas como eu sempre dormia, não fazia diferença.

Claro que naquela viagem de avião que eu fazia do Rio de Janeiro para Juiz de Fora, eu não dormi. Olhar o mundo por cima é muito bom. Passar pelas nuvens, subir mais alto que todos os pássaros, sensacional.

Vinha eu então, na minha viagem aérea, louco para chegar a Juiz de Fora – a gente sempre está louco para chegar -, passando por lugares lindos e iluminados em um voo tranquilo e ótimo, quando avistamos Juiz de Fora.

O avião foi perdendo altura, perdendo altura e os prédios da cidade aumentando de tamanho. Que experiência maravilhosa ver aquilo tudo por cima. Eu podia sentir a cidade respirar.

O avião inclinou-se mais para descer e voando rápido demais parecia uma flecha que era arremessada contra a avenida Barão do Rio Branco em pleno meio dia. Não havia como pará-lo. Não havia mais o que fazer. A gente iria se espatifar no asfalto perto da rua São Sebastião. Eu senti a cidade parar de respirar de medo.

Eu retesado no assento, esperava o derradeiro final. Olhei pela janela e me vi – de ônibus -, chegando a Belo Horizonte. A visão das lojas da Avenida Raja Gabaglia me fez abandonar o sonho. Localizei-me no banco do veículo e, com medo de ter gritado, continuei olhando pela janela, descontraindo cada músculo.

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VIAGEM VI

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Com o “Filósofo” a história foi diferente, mas em semelhante viagem: Projeto Rondon no norte de Minas Gerais.

Ele contou que depois de viajarem algumas horas, já com alguns tijolos expirados – devido à poeira na estrada -, a dor nas costas e quase um mal humor, ao que ele não era dado, conseguiu dormir um pouco;

Sonhou com alguma coisa, não sabe mais o que, nem onde e a jardineira comia pó pelo sertão. O calor insuportável fazia com que todos do veículo se sentissem um pouco nauseados e cansados de tanto tempo perdido no caminho.

Talvez a vida não seja tão dura para os habitantes daquela região que só conhecem aquele tipo de vida…

Sol do norte de Minas, sacolejar do ônibus, mal estar, sonolência…

O “Filo” foi acordado com a parada do veículo no meio do nada. Olhou para fora  e viu um posto de gasolina, nenhuma casa, talvez nenhum ser humano. Procurou, não viu, esperou  e, de repente, viu entrar pelo ônibus o auxiliar de viagem com uma pá cheia de terra.

Ele ainda pensou: Ele está entrando com uma pá de terra, não está saindo. Que isso?

Levantou-se ante a passagem do rapaz e acompanhou-o com os olhos. No penúltimo banco, a mãe de uma criança de mais ou menos sete anos de idade se levantou e o trocador jogou a terra em cima do vomitado da criança que aí, fedia.

Olhou pra frente, empunhou a pá como uma espingarda e gritou:

– Aí, “motô”, pode continuar a “viagem”!

FATOS CURIOSOS DE UM DIA

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“Saudosa maloca, maloca querida”…[1]

Pelo ar invadia a voz estridente da Elisa, uma louca que morava na pensão. Sua voz aguda acordava aos poucos as pessoas que dormiam naquele sábado até mais tarde.

“Saudosa maloca, maloca querida”…

Aos poucos a pensão ia se movimentado e dando ar de vida. Tia Dô, na cozinha, preparava o café que todas as manhãs servia aos moradores.

Quando nós três que morávamos no quarto da frente levantamo-nos, já haviam saído várias pessoas. Isso porque fugimos do costume: levantar-nos mais cedo que todos para irmos às aulas na UFJF, já que no sábado não teríamos aulas.

À mesa do café, pão, manteiga, alguns moradores da pensão faziam seu desjejum. O playboy velho, como mais de cinquenta anos, enrolando o cigarro de palha e dizendo ao carioca:

_ Toma conta da Elisa, manda ela para um hospital, Manuel.

_ Não tenho nada com isso, Vicente.

Vicente ontem mesmo chegara à pensão por vota da meia-noite, mandando Elisa calar-se com palavrões e recriminações.

_ Vamos fazer silêncio, porra! Quero dormir. A gente conviver com loucos é isso que dá. Qualquer dia, te encho de maconha, sua maluca.

Mas ali no café da manha ele estava sóbrio, mais humano(?).

Sentei-me à mesa e tia Dô me disse:

_ Faz uma semana que ela não toma banho. ‘Tá cheia de piolho e eu não sei mais o que é que eu faço…

Eu olhava para o café, quando o Paulo sentou-se perto de mim:

_ Escuta, fala mais como é que é a prova de matemática da UFJF.

Expliquei-lhe várias vezes como era a prova de matemática do vestibular e ele achava que como eu já faia medicina, tinha que saber como era a prova de matemática do vestibular de engenharia.

De repente, Elisa senta-se à mesa. Abre a garrafa térmica e coloca café na xícara, entornando a maior parte no pires, na mesa e fazendo a maior sujeira… Pega o pão cortando-o com a mão com gula e gestos esquivos, sinais de sua loucura. Paulo e eu continuávamos conversando e ela falando sozinha.

Levantei-me da mesa e quando dirigia-me ao meu quarto ouvi a voz da tia gritando com a louca.

Quando o Marcos e o Omar, que moravam comigo, resolveram-se levantar, todos já haviam saído e a mesa estava novamente nas sombras daquela manhã ondeo sol brilhava para alguns e deixava o casarão às escuras.

Peguei algumas roupas e me dirigi ao tanque Estava já lavando-as quando o Marquinho chegou:

_ Artur, tem sabão aí?

_ Tenho sim, vai lavar roupas também?

_ Acho que sim.

Estendi minhas cuecas e meias no varal e deixei-o com o Omar lavando as roupas deles.

Tia Dô chegou então na área e brincou:

_ Olha as lavadeiras… “lava roupa todo dia”…[2]

_ Isso mesmo – disse eu. – Lavadeira tem que cantar.

Começamos então a cantar um samba batendo na bacia de roupas. O sol agora já mostrava-se um pouco mais ao grande pátio do casarão.

Terminamos com as roupas, saímos como Paulo Matemática e o “Tcham tcham”, ou quinta sinfonia como chamava-o o Omar, ou o ouro Paulo que iam jogar bola. O último viera para Juiz de Fora para trabalhar. Iria trabalhar, futuramente se casar, morrer…

No caminho encontramos o Vicente com seu tipo especial de loucura:

_ Rapaz, transei com três gatas ontem. ‘Tô um bagaço.

_ Você ‘tà é ficando brocha, Vicente – disse-lhe o Tcham tcham.

_ E você é um filho da mãe…

Deixamos que ele ficasse preguejando no meio da rua e continuamos andando. Ao chegar à Casa d’Italia, ficamos vendo o jogo de futebol de salão, onde os paulos e alguns amigos jogavam contra um time de filhos de italianos. Os rapazes jogavam mal e ainda por cima estavam na própria casa dos adversários.

Deixamos o local e nos dirigimos ao restaurante universitário, onde como sempre, da comida, comível, todo mundo reclamava. Encontramos vários amigos da nossa sala e um ambiente muito alegre.

De volta a pensão, mais loucuras pela frente:

_ Ei – disse o Manuel ao Marcos, – você sabe aquela piada dos ovos?

_ Não.

Íamos nesse momento limpar o ralo do banheiro que já nem deixava sair água direito. O Omar fora a Barbacena encontrar-se com o irmão.

_ Tinha um pai – disse-lhe ele – que dava uma educação esmerada a seus filhos. E consumiam muitos ovos. O filho menor não podia comer sem ovos. Um dia, o pai resolveu não comprar mais ovos e o filho chorou muito. Numa certa hora, o pai, de calção, deixou a mostra os testículos, o filho virou-se para ele e lhe disse: “Pai, o senhor está com os testículos de fora”. O pai recolocando o escroto para dentro do calção, disse à mulher: “ Imagina se eu lhe ensino que isso são ovos?”

Esperávamos mais, mas infelizmente acabou. Rimos como que para fazer-lhe uma gentileza e ele se foi. Meus Deus! Só loucos, pensei.

Recolhemo-ns então ao quarto e fomos estudar bioquímica. À tare tia Dô trouxe-nos pão e sentamo-nos novamente à mesa. Incrível, o mesmo assunto, as mesmas pessoas, o mesmo momento… Uma novidade: Elisa saiu do banheiro, tomara banho e se penteara. O juízo até pareceu brincar-lhe na face, pois até conversou com tia Dô.

O banheiro era disputado e fazia-se fila para se tomar banho. Não era um banheiro muito bom, o lavatório estava entupido, o vaso sanitário não demoraria a entupir-se também e o chão era só cabelos dos moradores…

Após meu banho, saímos, Marcos e eu, e andamos pela cidade que praticamente descobríamos. Chegamos em casa e vimos a Lúcia deitada no sofá com o namorado, com certeza dormia e ele queria ver televisão. Ele e o carioca nos cumprimentaram. Na sala da frente, perto do nosso quarto, Elisa cantava:

“Saudosa maloca, maloca querida”…

Entramos para o nosso quarto e deitamo-nos pensando que inspirados na Elisa o nome de nossa república seria “Maloca querida” e monta-la-íamos o mais rápido possível. Do lado da minha cama, no outro quarto o rádio de um rapaz que fazia cursinho com certeza tocaria a noite toda.

Apagamos a luz e aos poucos fomos vencidos pelo sono. Nas nossas mentes ouvíamos ainda:

“Saudosa maloca, maloca querida”…

[1] Saudosa Maloca – Adoniram Barbosa

[2] Juventude transviada – Luiz Melodia.

Maloca querida – crônicas. 1998:115-20.

VIAGEM V

Houve aquela viagem que o Júnior fez para o norte de Minas em um projeto Rondon.

Claro que depois de alguns lugares aí pra cima no estado – em direção ao norte – os ônibus caem de qualidade assustadoramente. E lá estava o meu amigo metido numa jardineira a caminho de algum lugar que, certamente, não consta do mapa.

A viagem por essas bandas é daquelas onde se respira tanta poeira no trajeto que, quando se chega, se tossir, sai um tijolo.

Ele tentava dormir um pouco para passar rápido o infortúnio e em uma das mil paradas, entrou um homem velho segurando um pato e se sentou bem a sua frente. A situação já não era muito agradável, mas fazer o  quê?

Outra cochilada, outra parada e entrou uma mulher gorda – gorda “a più non posso” – e coloca no maleiro em cima da cabeça do velho que segurava o pato, a sua bolsa.

Mais algumas chaqualhadas e mais poeira e mais entra e sai de passageiros… De repente, depois de muito balançar, os dois litros de melado de cana, que estavam dentro da bolsa da mulher gorda, expulsaram as rolhas de papel e, como champagne, o melado saiu caindo exatamente na cabeça do velho que soltou o pato. A ave assustada, gritando, voa sobre os outros passageiros, que também alvoroçados, se levantaram também gritando.

pato

No meio da balbúrdia, havia aqueles que tentavam segurar o pato, os que tentavam estancar a hemorragia do melado e outros que tentavam levantar a mulher gorda encalhada no assento pequeno no ônibus.

O motorista, vendo tanta algazarra, para o ônibus e quer saber o do ocorrido. Inteirado da situação com cara emburrada diz:

– Que botem pra fora o pato!

E ficou no ar a pergunta: E quem vai pagar o pato?

VIAGEM IV

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Minha primeira viagem de avião foi um presente dos deuses. Meus amigos da faculdade todos, já tinham feito Projeto Rondon – um programa do governo muito bom para assistência às regiões menos favorecidas do país que não deveria ter terminado nuca -, e na época, eu não tinha podido ir. Com certeza, foram problemas de dinheiro para coisas extras, como sempre na minha vida de acadêmico. Enfim a residência, depois de diversas tentativas em outros locais, em Juiz de Fora mesmo.

A Universidade Federal de Juiz de Fora, UFJF, mantinha um campus avançado em Tefé, na Amazônia e, lógico, quando convidado, aceitei ir. Meus amigos fizeram Rondon no norte de Minas e eu faria no norte do país! Uau! Que ótimo!

Claro que a saída de Juiz de Fora naquela noite fria e chuvosa foi um caos. Parecia que eu iria para uma guerra. Mas isso não vem ao caso agora.

Entramos no avião, doze pessoas, todos com a camiseta do “Rondon” e o DC10 levantou voo. A sensação de voar é fantástica e poucos de nós tínhamos feito uma viagem de avião. Estávamos muito felizes, esquecemos problemas, faculdade, hospital, namoradas, namorados, amigos, família…

Após a parada em Brasília, eu já era amigo de todas as aeromoças. Nova decolagem e almoço – todos nós tomávamos duas bebidas diferentes e comemos um banquete – tudo era prazer. Na época, as empresas aéreas serviam comida, bebida e o que pudesse de melhor.

Claro que continuamos tomando cerveja e tirando retratos e conversando com outros passageiros até a derradeira descida em Manaus. O maior problema foi guardar o monte de blusas e agasalhos com que saímos de Juiz de Fora e aterrissarmos naquele aeroporto a quarenta graus o ano todo.

O efeito da cerveja não nos fez prestar muita atenção no calor e continuamos nossa festa no ônibus que nos levou até o “remanejo”, cantando:

– O homem chega, já desfaz a natureza, tira rio põe represa, diz que tudo vai mudar…

 

http://www.projetorondon.defesa.gov.br/portal/index/pagina/id/9718/area/C/module/default

UNHA ENCRAVADA

pedicure

Eu passei um tempo em minha vida onde as minhas unhas dos pés não eram encravadas. Não doíam e eu podia usar qualquer tipo de sapato. Eu tinha unhas bonitas e pés bonitos também. Eu cuidava e gostava de ver meus pés descalços pisando no tapete da sala. Gostava de usar meias caras, importadas, de seda que encaixavam nos meus pés como uma segunda pele.

Eu tinha pés bonitos que sustentavam meu corpo e mereciam cuidado e carinho. Minhas unhas não eram encravadas.

O tempo passa, o corpo sofre e, infelizmente, as unhas se encravam… O que faz com que as unhas se encravem? Por que elas se viram para dentro do dedo e passam a doer. Sapato apertado? Tênis pequeno? Idade? Velhice? Degeneração?

Claro que hoje aos noventa e dois anos, não consigo mais cortar minhas unhas dos pés e, talvez por isso, elas estejam doendo, encravadas. Estão sentindo saudade do tempo em que eu podia cuidar delas, fazer carinho, quase beija-las na boca.

Sinto muito! Há outras coisas em mim que estão se encravando: o coração tem dias que dói, eu não sei se ele também sente minha falta de atenção. Falta de ar e o pulmão está encravado nos duzentos e vinte anos que fumei como ninguém. E se eu enumerar, talvez eu esteja encravado em uma vida que a algum tempo já deveria ter terminado.

Hoje, no entanto, o que incomoda é só a unha do dedão esquerdo. Ou seria a do direito? Acho que são as duas.

VIAGEM III

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É claro que do tempo em que tentávamos provas de residência médica, houve muitas viagens engraçadas.

Houve aquela primeira prova que fomos fazer em Belo Horizonte ainda em outubro – formar-nos-íamos em dezembro – e o ônibus era quase todo da nossa turma da faculdade. Fazíamos uma confusão dentro do veículo e, me lembro bem, logo depois da parada em Conselheiro Lafaiete, ainda tínhamos um longo percurso até Belo Horizonte. “Lá pelas tantas”, eu resolvi dizer ao Júnior ao meu lado, que estava com vontade de urinar – o ônibus na época, não tinha banheiro.

– Pede para parar o ônibus – disse-me ele.

– Não – respondi. – Dá pra esperar.

– Será que dá? – perguntou-me ele.

– Dá sim – respondi com convicção.

– Sabe o que é pior? – começou ele. – É que o rim não sabe. Aí o sangue passa pelo glomérulo e o glomérulo filtra e vem aquela gotinha de urina pelo ureter – ele olhou para mim – e chega na bexiga e faz “pim”.

– Chato! – respondi. – Fica quieto!

Mais cinco minutos de viagem e ele virou-se para mim e disse:

– Vem escorrendo pelo ureter e “pim”

– Para, cara – disse eu.

– Mas o rim não para – disse ele sem sorrir, – “pim”.

– Fica quieto!

O resto do ônibus conversando outras coisas, todo mundo alegre e tenso pela prova a vista e eu olhava para ele e ele dizia:

– “Pim”.

O “pim” realmente doía na bexiga repleta de urina e, acredito, no corpo inteiro: “Pim, pim, pim”.

Eu olhava para sua cara de sacana, impassível como lhe é próprio, sem sorrir, e ele dizia:

– “Pim”.

Não aguentando mais, logo depois me levantei para pedia ao motorista que parasse o ônibus e disse para o resto da turma:

– Se alguém me “gozar” eu meto a mão.

ESPERANÇA

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O corpo moribundo, respirando por meio de aparelhos, ainda mantinha presa a alma que pensava já em unir-se a outras nos planos invisíveis. Os olhos baços, a pele ressequida, o coração sem vontade de bater, o ar que já não filtrava nos alvéolos mesmo empurrado pelo ventilador aos pulmões… O corpo se consumia na UTI.

E na hora da visita, a filha entrou e chamou por ele. Passou a mão pela sua testa suada e chamou por ele. Descobriu um pouco o seu corpo, quase uma ossada e chamou por ele… Conversou com ele. Falou do tempo. Falou da casa. Falou da mãe… Estavam sozinhas as duas esperando que ele voltasse para casa. Sentiam muito a falta que ele fazia e queriam a todo custo que ele estivesse lá.

– Você vai voltar, não vai, pai? – perguntou-lhe alto a filha que segurava a mão do moribundo.

E o doente apático, coma grau três, respiração mecânica, tubos e mais tubos enfiados por quase todos os seus orifícios, continuava a consumir-se deitado naquele leito.

A moça, filha única do velho canceroso, vendo de longe o médico de plantão, aproximou-se e sorrindo perguntou:

– Ele melhorou, doutor?

– Não – respondeu o médico procurando ajuda-la a entender, – continua na mesma.

– Mas ele tem chance? – voltou a moça com um sorriso.

– Sim e não – respondeu o médico. – Você sabe o que ele tem?

– Mais ou menos – responde a filha.

– Ele está grave. Muito grave – disse o médico.

– E quantos dias o senhor acha que ele ainda fica aqui n UTI?

– Não sei! – responde o médico. – Ele pode…

– Ter alta brevemente – interrompeu ela o que o médico iria dizer, talvez pensando no óbito.

– Talvez…

– Ele está entendendo quando eu falo com ele? – perguntou ela.

– Acho que não – responde o médico.

– Mas ele vai ficar bom – disse ela enfática e saiu.

Não, não vai! pensa o médico. Não há como livra-lo do câncer que corroeu sua próstata e agora destrói seus pulmões e cérebro. Não há mais chances. O médico sabia que o óbito seria o próximo estágio daquele doente, mas o que fazer com a pobre e leiga filha? Dizer-lhe a mais pura verdade? Endurecer o seu coração jovem como a vida e a medicina endureceram o seu? Deixar que ela ainda tivesse esperanças e sonhasse com o retorno do pai para casa?

Simplesmente ele não sabia o que era mais certo. Gostaria muito que as pessoas compreendessem que a máquina humana envelhece. Estraga-se com o tempo e com as coisas erradas que se faz com ela. Não tem como trocar peças… A máquina morre!

Mas sempre há esperanças!

FRIO

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Frio! Frio! Frio!

Frio como há muito tempo não fazia frio em Juiz de Fora.

Eu, atravessando a avenida Rio Branco, correndo para ir para casa o mais rápido possível, deixei cair uma moeda que rolou pela avenida sem a mínima chance de eu pega-la.

Parei do outro lado da avenida e tentando imaginar o que houvera perdido, sucumbi-me ao irreal:

E se eu tivesse deixado cair uma moeda de um real?

Se eu – imaginando-me um exemplo de economia -, pusesse esse dinheiro em alguma aplicação financeira, talvez a poupança, rendendo 1,2% ao mês, teria eu um capital violento de milhões de reais ao fim de bilhões de anos. Seria riquíssimo e o mundo talvez, nem mais existisse.

Se no entanto, menos ávaro e mais empreendedor, eu comprasse meia dúzia de ovos, talvez uns oito – não sei quanto custa uma dúzia de ovos desde que tenho que fazer dieta – e pusesse para chocar… Não sei onde. No forno de micro-ondas chocam-se ovos? Não interessa! Se desses ovos saíssem oito galinhas que dentro de um ano começassem a botar, claro, eu teria um monte de ovos para vender – não sei quantos -, a um real e recuperaria o meu real perdido na avenida, rapidamente depois de um ano e com todos os gastos que houvera de ter tido para cuidar das minhas galinhas com mais um monte de ovos que poderiam gerar ou um real ou outras galinhas – isso sem falar nos galos e frangos que eu teria que vender e enganar o pobre do gourmé que quer um belo “molho-pardo” e por baixo das penas vê apenas um pinto e não um frango…

Talvez eu comprasse meio maço de cigarros. Poderia poluir meio pulmão. Ou será que meio-poluiria o pulmão inteiro? Ou não seria nada disso?

Quem sabe “dez-quinze avos” de uma cerveja e ficaria com alguns “avos” de embriaguez se seria um “cara” alguns dividendos mais feliz?

Saber o que faria com a minha moeda que eu não sabia se era de um real ou de um centavo de real estava me levando à loucura e eu não podia ficar ali parado correndo o risco de me levarem outros reais, e, não tinha como me arriscar a debaixo de um ônibus descobrir que a moeda era ínfima.

Que fazer? Perdido na avenida Rio Branco, tarde da noite, deixei escapar a minha moeda. Resolvi que era pequena.

Mas, mesmo pequena, e se eu jogasse no bicho?

ALCÉPIO

doctor in clinic cartoon illustration

– Alcépio Carlos de Jesus – chamei o meu próximo paciente.

Levantou-se um casal, vestidos a contento, roupas de boa qualidade e senti o cheiro: – o último banho deve ter sido na época do Dilúvio.

– O que está acontecendo, Alcépio? – perguntei ao rapaz de seus vinte e oito anos de idade.

– Sabe, doutor, eu estou tendo uma dor de cabeça rotatória – respondeu-me ele.

– Como é que é isso? perguntei-lhe.

– Sabe, quando dá a dor, roda tudo.

Olhei para a mulher que me sorriu um sorriso cheio de dentes estragados.

– Mas, Alcépio, há quanto tempo vem acontecendo?

– Desde segunda-feira!

– Mas hoje é segunda-feira. Uma semana?

– Não! Então é desde sábado.

– Você nunca teve isso, Alcépio?

– Já, quando eu era mais novo.

– E você foi ao médico nessa época?

– Não – respondeu-me ele. – A única vez que eu fui ao médico foi quando precisei de atestado de “saneamento” físico e mental para o serviço.

– Certo – disse-lhe eu, querendo rir, sem poder. – Você já fez algum exame para essa dor?

– Não. Eu vou ter que ir no oculista porque quando roda tudo eu enxergo pouco.

– E nunca tomou remédios, Alcépio?

– Não – respondeu ele e a mulher sorriu de novo.

Depois de muito conversar e depois de examina-lo, percebi que havia a necessidade de encaminha-lo ao neurologista.

– Olha, escrevi aqui para você pegar uma guia para ir ao neurologista, Alcépio.

– Será que é “enxacueca”? – perguntou-me a mulher.

– Pode ser. Talveez.

O casal saiu e eu, após arejar a sala impregnada pelo seu cheio ruim, voltei a sala e chamei:

– Antônio José de Oliveira.

Como não houve resposta, atendi o próximo paciente e depois de umas três ou quatro chamadas ao Antônio José de Oliveira, perguntei aos meus auxiliares porque marcaram uma consulta de encaixe para um paciente que não estava ali. Não souberam me responder onde ele poderia estar, mas que esteve, poderiam jurar.

Voltando ao meu consultório a encarregada da emissão das guias me procurou para me dizer que Alcépio não era nosso neurologista credenciado. Expliquei-lhe que Alcépio era o nome do paciente e ela se foi.

Em mais uma de minhas entradas na sala de espera, levanta-se um rapaz e me pergunta:

– Doutor, o senhor não vai me chamar?

– Como é seu nome? – perguntei.

– Alcépio – respondeu ele.

– Outro Alcépio? Não é possível!

– Claro que não, doutor. Eu acho que sou o único no mundo a ter esse nome.

Rimos e eu entrei com ele no meu consultório e pudemos constatar que o personagem da “cefaleia rotatória” era na verdade o Antônio José de Oliveira que foi atendido no lugar do Alcépio e, pior, deixou-se chamar o tempo todo por Alcépio.

– Meu filho – disse eu para o verdadeiro Alcépio, – eu chamei o cara de Alcépio o tempo todo e até mesmo no encaminhamento que fiz para o neurologista, escrevi Alcépio e ele nada disse.

– Mas doutor, ele foi encaminhado para o neurologista, não seria melhor encaminhar para a psiquiatria?

Rimos. Depois disso, nunca mais vi nenhum dos dois Alcépios.